Crônicas de Helgard: Capítulo 10 (Reescrito)

Magusgod: Para quem leu o capítulo antes de ser reescrito, aviso que não houve grandes mudanças. A principal mudança foi na parte em que descreve como é possível adquirir uma Profissão. Fora isso o capítulo é igual a versão anterior.

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A Ladina e a Tumbas dos Gigantes!

 

 

 

Ano 650 da Era Solariana. Arins (1º mês), Dia 5, 06: 15 am

 

 

Na fronteira das Terras Esquecidas.

Situados nas margens do rio Rhiannon estava a cidade Ansgar, um punhado de edificações de madeira e pedra rodeado por uma muralha em ruínas. Na periferia da cidade, onde edificações em estado de deterioração se aglomeravam nas sombras da muralha, vive uma jovem garota ruiva chamada Brienne.

A casa que ela vivia era uma mistura de madeira e alvenaria, utilizando os escombros da muralha. Se o estado da casa do lado de fora pode ser considerado precário. O interior não era nenhum pouco melhor. O assoalho de madeira estava apodrecido; as paredes da casa mofada; e os únicos móveis da casa eram um simples armário, uma mesa e duas cadeiras sem pernas apoiada sobre blocos de pedra.

Dentro da casa, ao lado de uma lareira com brasas, havia uma jovem garota ruiva dormindo no chão de madeira coberto por palha, enrolada em cobertores. Mesmo com as luzes do sol atravessando a brecha do telhado, aquecendo seu rosto, não era o suficiente para tirar a garota de seu sono profundo.

― Irmãzona, acorde! Irmãzona, acorde!

Ao lado de Brienne, um garotinho de cinco anos de idade, com suas mãozinhas sacudia o saco de dormir numa tentativa de acordar sua irmã.

― Só….Mais um minuto… ― Brienne respondeu com uma voz sonolenta. ― Só…Mais um minuto…Nicolas…

― Irmãzona, você falou a mesma coisa uma hora atrás!

Ao ouvir as palavras de seu irmãozinho acordou de sobressalto, erguendo a cabeça. Seus cabelos ruivos estavam desgrenhados. Estreitou os olhos, por causa da luminosidade da sala.

― Merda! ― ela praguejou. ― Nicolas porque não me acordou antes?!

― Até que eu tentei ― ele respondeu andado para cozinha. ― Mas, você só roncava e babava.

Brienne enrubesceu.

― Não ronco e nem babo! ― esbravejou.

― Ronca sim, irmãzona idiota! ― Nicolas fez uma careta e mostrou a língua antes de deixar a sala correndo.

― Esse pirralho mal criado…

Brienne se levantou, ergueu os braços para cima e entrelaçou os dedos, espreguiçando seu corpo esguio. Vestindo apenas suas roupas íntimas, deixou o quarto em direção ao banheiro, pisando no soalho frio com pés desnudos. No banheiro, retirou suas roupas íntimas e encharcou o pano no balde de água e passou por seu corpo, tremendo, enquanto a água gélida escorria por seu corpo.

Depois de se limpar andou até um pedaço de metal espelhado. Enquanto secava seu corpo, olhava para seu próprio reflexo no metal espelhado.

― Treze anos hein… ― Brienne falou vagarosamente, analisando seu corpo esguio, seios pequenos e pontudos, nádegas eram redondas e cheias de carne. Em vários aspectos seu corpo era como o de uma garota normal de sua idade, a não ser por suas pernas fortes e os cortes e as coleções de hematomas por todo corpo. ― …Meu corpo está em processo de desenvolvimento! Apesar de que para uma ladina esse é um corpo perfeito…

Enquanto Brienne ganhava em certas áreas de garotas em sua idade, perdia na questão de altura. Ela tinha aproximadamente 1,45 de altura, uma estatura baixa quando comparada com outras garotas de sua idade. Contudo, seu corpo esguio e a altura baixa eram perfeitos para alguém que exercia sua classe: uma Ladina.

Normalmente em Helgard para uma pessoa adquirir uma classe seria necessário ir até uma Igreja Sagrada e pagar uma taxa. Mesmo que fosse um serviço caro, aqueles com condições não hesitavam em gastar tudo que tinham para obter uma classe. Por que existe uma grande diferença daqueles com classe para aqueles sem. Uma pessoa que possui classe tem maior facilidade de aprender perícias e conforme subir de nível de classe, pode evoluir de classe e obter novas perícias.

No caso de Brienne, ela não precisou ir para uma Igreja Sagrada e pagar para adquirir uma classe. Ela é um caso especial. Muito raro. Basicamente havia herdado a classe de seu pai, Sven o ruivo.

Além de herdar a classe diretamente de seu pai, recebeu um treinamento duro desde os sete anos de idade para dominar as perícias e afiar seus sentidos e reflexos naturais.

Após secar o corpo vestiu suas roupas íntimas e voltou para a sala vestindo um par de calças surradas rasgada nos joelhos; sob a camiseta de linho vestiu um corselete desgastado feito do couro de besta mutante; duas adagas afiadas, com cabo feito de ossos, estavam presas ao cinto cheio de pequenos bolsos.

As adagas pertenciam anteriormente ao seu pai, algo mais próximo de uma lembrança que ela tinha dele.

Seu pai era um membro da Guilda dos Exploradores – uma associação que reúne especialistas em diversas áreas para explorações de ruínas em busca de tesouros.

Ladinos são essenciais para qualquer grupo de exploradores de sucesso. Um trabalho rendável, mas extremamente perigoso. Calabouços de ruínas são cheias de armadilhas, quando não se tornam covis de perigosas bestas mutantes (monstros). Foi em um dessas explorações que o pai de Brienne perdeu sua vida.

Desde a morte de seu pai, Brienne se tornou uma exploradora e realizava pequenas explorações solos em ruínas de baixa periculosidade. As pequenas coisas que encontrava e vendia para Guilda era sua tábua de salvação. Caso contrário, morreria de fome, ou teria que abrir mão de seu orgulho e vender seu corpo nos becos para sobreviver.

Brienne tinha uma expressão sombria.

― Hoje tenho que dar meu melhor para encontrar algo de valor. As despesas estão ficando cada vez mais apertadas… Logo não teremos o que comer…

Ela colocou um manto surrado de pele animal, aquecendo-a do tempo frio. E calçou um par de botas degastada. Deixou o quarto em direção da cozinha. Na mesa seu irmãozinho servia o desjejum: mingau de arroz e alguns vegetais selvagens que havia colhido no dia anterior.

― Tenha cuidado, irmãzona. Não se arisque demais lá fora!

Brienne bagunçou o cabelo dele.

― Pode deixar comigo! ― disse ela em um tom alegre. ― Estou de saída. Lembre-se não abra a porta para ninguém. Caso algo acontecer… Corra e se esconde naquele lugar que combinamos.

Nicolas assentiu obedientemente.

Ao terminar o desjejum, despediu-se de seu irmãozinho e deixou a casa. Seguindo em direção ao portão leste, andou pelas ruas de terra ao longo da sombra da muralha passando por pessoas de diversas raças e etnias. Cumprimentou alguns conhecidos pelo caminho e em certos becos, podia sentir olhares vigilantes sobre ela.

Ela pousou uma mão sobre a adaga, acelerou o passo deixando para trás as periferias.

Falta dias para o pagamento e esses canalhas já estão me vigiando, pensou ela amargamente. Maldito dia que fui pegar dinheiro emprestado com esses canalhas!

Em poucos minutos chegou ao portão em forma de arco com as portas abertas para dentro, flanqueado por soldados uniformizados, vestindo casacos sob cota de malha, segurando longas lanças. E, estacionado ao lado de fora da entrada. A máquina de matar, gigante de aço que protege Ansgar desde que foi criada: Cavaleiro Blindado.

Apesar de Brienne praticamente vê-lo todos os dias. Não pode deixar de suspirar em admiração sempre que via aquele Cavaleiro Mecanizado. Embora sua blindagem protetora não estivesse no melhor estado, ainda era uma arma que impunha medo e admiração no coração das pessoas.

Se fosse descrever sua aparência, seria algo parecido com um cavaleiro de armadura pesada com dez metros de altura.

Esse gigante de aço era artefatos antigos comumente encontrados em ruínas helgardianas – uma civilização que governou o mundo milhares de anos atrás.

Era o sonho de toda criança e adultos pilotar um Cavaleiro Blindado. Infelizmente, esses artefatos antigos só podem ser operados por feiticeiros.

Do lado de fora das muralhas, ela seguiu pela estrada principal que acompanhava as margens do rio Rhiannon. Vindo na direção contrária, fazendeiros levavam em carroças seus produtos para os mercados em Ansgar. Quilômetros à frente a estrada se bifurcava em três caminhos diferentes. Ela seguiu a estrada a esquerda, chegando até uma grande ponte de pedra que levava para outra margem do rio.

Atravessando a ponte passou por pequenos grupos de exploradores.

Chegando do outro lado, seguiu por trilha estreita rodeada por uma vegetação alta e grandes blocos de rocha espalhados por todo lado. Entrou em uma floresta de árvores que bloqueavam a visão do céu e produziam sombras no chão. Andava com cautela, evitando tropeçar em raízes, olhos vigilantes.

O ar de uma garota de treze anos de idade mudou ao poucos para um ar atento e experiente.
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Aquela floresta era um atalho que sempre usava para chegar as ruínas do vale chamado de “tumbas dos gigantes”. Embora o atalho não fosse muito utilizado em razão da possibilidade do ataque de bestas mutantes. Para Brienne o atalho era mais seguro do que seguir pela trilha principal que contorna parte da floresta. Ir pela trilha principal a deixaria vulnerável a emboscadas de bandidos e exploradores mal intencionados – o que não era um acontecimento raro por aquelas terras.

Pelo menos aqui Brienne podia usar todas suas capacidade em furtividade para fugir, sejam eles humanos ou bestas mutantes. Embora fosse relativamente nova no mundo dos exploradores. Ela sabia o suficiente, através das histórias contadas por seu pai, para sobreviver do lado de fora das muralhas.

Minutos depois deixou a floresta, chegando as ruínas: Tumbas dos Gigantes.

As Tumbas dos Gigantes ficava entre vales profundos, cobertos por uma vegetação rasteira, por onde corria um riacho cheio de plantas aquáticas, desaguando no rio Rhiannon mais abaixo.

Brienne andou pelas sombras de monumentos megalíticos – grandes blocos de pedras que se elevavam ao longo do vale. Por todo lado era visível restos de edificações monumentais típicas da civilização helgardiana. Mas esse lugar levava o nome “tumbas dos gigantes” apenas pelas estruturas megalíticas, mas também pelos inúmeros restos de cavaleiros mecanizados que foram encontrados lá.

― Não importa quantas vezes eu veja esse lugar. Nunca vou deixar me espantar com essa visão grandiosa.

De joelho, com o peito atravessado por uma espada gigante, era um cavaleiro mecanizado com quase trinta metros de altura. Um colosso silencioso tomado pela ferrugem, musgos e líquen. E ao seu redor havia inúmeras carcaças tomadas pela natureza até onde seus olhos podiam enxergar.

― Esse lugar foi explorado por um número sem fim de exploradores e acadêmicos de toda Federação. Mas até hoje não descobriram nenhuma pista do que aconteceu nesse lugar.

Seus olhos azul-esverdeado procurou nos arredores por qualquer sinal de outros exploradores.

― Felizmente. Parece que hoje tenho a Tumbas dos Gigantes exclusivamente para mim!

Brienne sorriu.

Embora a Tumbas dos Gigantes fosse um complexo de ruínas que foi revirado por inúmeros exploradores, com olhos atentos, ainda era possível encontrar alguma coisa de valor.

― Vamos mão a obra!

Brienne andou pelas carcaças de cavaleiros mecanizados, procurando por sinais de lugares que não foram tocados por exploradores.

Utilizando a perícia【Investigação】tornava o processo da procura bem mais fácil. Graças a essa perícia era possível notar detalhes que poderia passar despercebido por olhos normais.

Quando o sol atingiu o meio do céu, fez uma breve pausa para uma pequena refeição. Descansou no alto de uma rocha, aonde poderia ter uma ampla visão dos arredores, enquanto devorava pedaços de carne seca.

Nuvens pesadas se moviam para o sul, lançando sombras sobre as ruínas. Uma brisa suave agitava o ar e fazia o mato dançar conforme soprava.

Fora o som do vento, o silêncio imperava nas ruínas.

Ela retirou o cantil de água preso na correia do cinto, matando a sede.

― Estranho, por que não há nenhum explorador por aqui?

Brienne explorava as Tumbas dos Gigantes há vários meses. E todas vezes que explorou esse lugar, nunca deixou de encontrar outros grupos de exploradores – normalmente novatos -, explorando o lugar para adquirir experiência ou como ela na esperança de encontrar relíquias de valor.

― Esse silêncio não é nada bom…

Após o termino da pausa, deixou o lugar e andou pela borda das ruínas a procura de sinais de outros exploradores.

Minutos mais tarde encontrou uma série de pegadas. Brienne ajoelhou-se no tapete de grama de uma colina e usando a perícia【Investigação】examinou atentamente as pegadas deixadas para trás. Os rastros disseram-lhe que era um grupo de bestas mutantes e estiveram naquele local havia poucos minutos.

Pelas pegadas deduziu que eram de uma besta mutante conhecida como Lebre Assassina – uma criatura bípede com aproximadamente 1 metro a 1, 20 de altura, com o corpo coberto por uma pelagem branca e a cabeça de um coelho.

Eram criaturas rápidas e ágeis, mas na questão de força e resistência, eram mais fracos do que um humano comum. Uma lebre assassina sozinha não era problema. Contudo, sempre andavam em bandos que variavam de dez até centenas.

― Pelas pegadas é um pequeno grupo de cinco lebres assassinas. Se eu as capturar posso utilizar a carne para me alimentar por semanas e vender sua pele por um bom preço no mercado…

Seus olhos azul-esverdeado brilhavam, imaginando o quanto poderia ganhar com a venda das peles.

Seguiu o rastro do grupo de lebres assassinas, atravessando um riacho, pulando de pedra em pedra com agilidade e destreza de uma gata. Chegou até o fim das colinas aonde havia uma vala e do outro lado havia uma vasta extensão de árvores altas e no horizonte era possível ver uma imponente montanha cinzenta e seu pico tingindo de neve.

― Merda! Será que eles passaram para o outro lado?

Naquele momento sua perícia【Percepção de Perigo】disparou loucamente em sua cabeça. Sem pensar duas vezes girou sobre os calcanhares e afastou-se do lugar o mais rápido possível. No mesmo instante, surgindo silenciosamente das árvores altas, surgiu uma besta mutante que lembrava um lobo. Ao invés de seu corpo ser coberto por pelos, era coberto por escamas negras brilhantes como obsidianas.

Seus olhos carmesim encarava a jovem ruiva e em sua boca, ensanguentada, havia o que restou de uma lebre assassino.

― Um Lobo Escamado?! ― exclamou de terror ao olhar para trás. ― Merda! Merda! Merda!

Vendo sua refeição afastar-se, o lobo escamado largou o que havia restado da lebre assassino e soltou um longo uivo que reverberou pelo ar. Brienne levantou a mão em uma tentativa de anemizar o som agudo que parecia que explodiria sua cabeça. Tropeçou em seus próprios pés, caindo no chão, vendo a besta mutante aproximando-se com rapidez.

Desesperada, lutou para levantar-se e uma maneira de escapar daquela situação com vida. Se ela estivesse nas ruínas poderia tentar escapar da besta mutante utilizando sua habilidade de Furtividade. Contudo estava em um terreno aberto e não havia nada que pudesse servir como esconderijo.

Vamos lá, Brienne! Você é uma ladina, e uma ladina encontrar uma solução para qualquer problema!

Pensava desesperadamente. Seus olhos vagaram rapidamente digitalizando seus arredores. Ao olhar para a vala encontrou a solução para seu problema. Era uma aposta arriscada, mas com certeza morreria se ficasse ali.

Em poucos segundos o lobo escamado alcançou Brienne e desferiu um golpe com suas poderosas garras.

Sentido o perigo, ela girou para o lado evitando por poucos centímetros as garras do lobo escamado. E ergueu-se em um pulo com destreza.

Sem perder tempo Correu com todas suas forças para a vala.

Se ela tivesse bons equipamentos até arriscaria enfrentar o lobo escamado. Contudo suas armas eram ineficazes contra a armadura natural do lobo escamado. E uma única patada do lobo escamado seria o suficiente para manda-la para o além vida.

O lobo escamado soltou um rugido poderoso, atordoando a jovem ruiva. E avançou ferozmente golpeando-a com uma patada viciosa. No último instante Brienne conseguiu recuperar seus sentidos e desviar do golpe mortal, mas as garras da besta mutante rasgaram o manto e seu corselete deixando profundas marcas da garra em suas costas.

Ela cambaleou em direção à vala e atirou contra o lobo escamado um saco contendo uma mistura de ervas e pimenta, criando uma bomba de pó atordoante que irritou os olhos e olfato do lobo escamado. Ela caiu na vala, rolando pela lama, mesmo com suas costas ardendo, cobriu todo seu corpo com lama e parou imóvel, escondendo-se entre as raízes de uma árvore, ativando habilidade【Furtividade】, rezando para que o lobo escamado não a encontrasse.

Momento depois o lobo escamado surgiu com seus grandes olhos avermelhados, irritados pelo pó atordoante. Soltou vários rosnados, andando de um lado para o outro, mas no final desistiu e correu em direção as Tumbas dos Gigantes.

Ela não ousou sair de seu lugar e com o ferimento grave que recebeu acabou perdendo a consciência. Pensou, antes de perder a consciência, no que seria de seu irmãozinho caso morresse naquele lugar.

Precisava de tratamento médico com urgência, caso contrário morreria.

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