Crônicas de Helgard: Capítulo 16

Karl, um Lemurian?

 

 

Na parte de trás da casa. Brienne passava um pano molhado – uma mistura especial caseira para remover manchas – sobre a manopla de Karl manchada de sangue. Suas ações eram acompanhadas de extremo cuidado para não danificar o equipamento.

― Que tipo de material é esse? Não parece ser feito de couro ou metal. Sua textura e robustez são diferentes de tudo que eu vi!

Mas o que havia mais lhe surpreendido era as habilidades da manopla. Momentos atrás, por curiosidade, havia colocado uma das manoplas. Para seu espanto, a manopla havia se adaptado magicamente ao tamanho de sua mão e descobriu que podia canalizar poder mágico na manopla.

Ela não tinha dúvidas: a manopla era uma ferramenta de fundição mágica.

O pouco que ela sabia sobre o mundo dos feiticeiros, era que para tecer suas magias era necessário usar ferramentas de fundição mágica. Os mais utilizados pelos feiticeiros eram varinhas, grimórios, talismãs e Dragoons.

Feiticeiros por si eram raros, havia poucos deles no mundo. Mas quando era pequena teve a oportunidade de ver um feiticeiro tecendo uma magia, criando uma esfera de fogo incandescente. Desde aquele dia sonhou em se tornar uma feiticeira, mas diante a dura realidade de que não tinha talento para se tornar feiticeira e que uma simples varinha custava 10 Drac de prata, fez ela desistir desse sonho.

― Se apenas uma varinha simples é tão caro ― murmurou ela suando frio. ― Qual seria o valor dessa manopla? Droga, se eu danificar esse tesouro divino, mesmo me tornando sua escrava não seria o suficiente para compensa-lo!

Brienne sentia vontade de chorar. Não era só a manopla que parecia valer uma fortuna. Era todo seu equipamento! Suspeitava que até as roupas de baixo dele fosse tão caro que nem poderia sonhar.

Não somente sua força era de outro mundo. Seus equipamentos pareciam ter saído de um reino lendário, aonde uma pobre garota como ela pode apenas sonhar em ter.

― Afinal de contas que ele realmente é? ― murmurou para si mesmo esfregando o pano até remover a mancha de sangue, deixando a manopla brilhando. ― Duvido que ele venha de um fundo normal, talvez seja um nobre ou até mesmo um príncipe de algum grande país! Princesa Brienne kukuku… Soa nada mal para mim…

Quanto mais Brienne pensava sobre as origens de Karl, mas sua imaginação corria selvagem. Depois de terminar de passar um pano em cada parte do equipamento. Levou até a porta do banheiro, onde Karl estava lavando seu corpo.

Girou a maçaneta, abrindo a porta e lançou um olhar para a silhueta de Karl através da divisória do banheiro.

― Retirei as manchas de sangue de seu equipamento ― disse ela deixando o equipamento de Karl sobre a cesta de roupas. ― Vou deixar sobre a cesta de roupa, se precisar de algo não hesite em me chamar!

A resposta veio com um “ok” e não falou mais nada. Ela andou até a porta colocando a mão sobre a maçaneta… Então seus olhos brilharam com uma ideia.

Eu jamais faria isso com qualquer outro homem, pensou ela corando levemente. Mas, ele já viu meu corpo sem veste e pelos menos sei que ele não vai me atacar como uma besta selvagem.

Enrolando os lábios em um pequeno sorriso, deu meia volta e retirou peça por peça até ficar completamente nua. Antes de abrir a divisória respirou fundo preparando-se mentalmente para todos cenários possíveis. Então com muita coragem, afastou a divisória para o lado revelando o corpo robusto de karl completamente nu, jogando um balde de água fria sobre seu corpo, escorrendo por seus músculos delineados.

Estava com a cabeça erguida, com olhos fechados, imerso em vários pensamentos.

Quando os olhos de Brienne pousaram nas partes debaixo de Karl, se arregalaram, e todo seu rosto se tornou puro vermelho.

― Você é mesmo um humano?! ― exclamou ela dando voz aos seus pensamentos. ― Essa coisa é um monstro!

― O que você está fazendo aqui? ― questionou, abrindo os olhos.

Seus olhos escuros caíram sobre o corpo desnudo da jovem de cabelos ruivos. Vendo seus ombros estreitos, pequenos seios pontudos de picos rosados, como pétalas de cerejeira, e pernas delgadas. Todo seu corpo magro de pele rosada exalava um charme de donzela pura – seu rosto vermelho e olhar tímido apenas reforçava seu charme.

Karl sentia que havia visto aquela jovem nua muitas vezes para um único dia.

Ele poderia até imaginar quais eram as intenções de Brienne, mas acreditava que ela estava se arriscando demais. Afinal de contas Karl era um homem, virgem, que nunca teve qualquer experiência amorosa em sua vida passada.

Ele sentia-se como um lobo diante uma ovelha que insistia em atirar-se para sua boca.

― O que você está fazendo aqui? ― voltou a perguntar.

Sob o olhar de Karl ela se encolheu timidamente. Achava que estava preparada para qualquer cenário, mas “aquele monstro” havia quebrado toda sua concentração.

Já que estou aqui não posso recuar! Pensou respirando fundo e estufando o peito, andou até Karl com cautela, levando uma toalha molhada para lavar seu corpo, como estivesse aproximando-se de um animal perigoso.

― …Como sua garota…. É meu dever ajudar lavar seu corpo! ― Brienne gaguejou, sentia seu rosto cada vez mais quente. ― Não se preocupe… Vai ficar tudo bem… Fique paradinho ai…

Karl soltou um longo suspiro.

Sinceramente, ele já não sabia se aquela pequena raposa era muito esperta, ou era simplesmente uma idiota.

― Volte daqui a cinco anos e a deixarei que lave meu corpo ― Karl respondeu. ― Até lá se comporte como uma boa garota de sua idade.

― Vou lavar seu corpo agora! ― empertigou-se ao ver que ele estava a tratando como uma criança. Saltou para cima dele, agarrando sua cintura, pressionando seus picos rosados contra o peito robusto de Karl.

― Me solte sua idiota! ― disse ele tentando colocar a garota de lado, mas acabou escorregando e caindo de costas no chão. Batendo a cabeça contra a parede do banheiro.

Sua mente ficou turva por um breve momento. Quando voltou a recuperar sua consciência sentiu uma suavidade quente e agradável pressionando sua parte de baixo. Ao olhar para frente, descobriu que a garota acabou caindo sentada sobre sua parte debaixo, pressionando seu quadril com suas pernas delgadas.

Percebendo onde estava sentada, Brienne rapidamente se levantou , afastando com um olhar embaraçado.

― …Você me tocou! ― disse ela sem saber para onde olhar. ― Definitivamente vai ter que assumir a responsabilidade!

― Tecnicamente não te toquei… Não com as mãos ― Karl levantou e virou-se ficando de costa para Brienne. ― Verdade seja dita eu sou a vítima aqui. Mas não adianta discutir com você, por favor, me deixe terminar de me limpar em paz.

Não houve resposta, mas sabia que a garota continuava no banheiro. Depois de alguns segundos naquele silêncio estranho, olhou para ela sob os ombros. Vendo o olhar esbugalhado de medo da garota não pode deixar de franzir a testa.

― O que foi? ― Karl perguntou.

Ela não respondeu. Estava apavorada, como estivesse olhando…

Karl seguiu o olhar da garota então soube de imediato por que ela estava com medo dele. Merda, como eu posso me esquecer do aviso do mestre?! Pensou ele virando-se para frente. Preciso explicar para ela o que sou para não me confundir com um…

― Brienne… ― Karl falou calmamente. ― Não sou o que você…

Antes que pudesse terminar de falar, ela deixou o banheiro com uma incrível velocidade. Karl correu atrás a pegando bem no corredor do banheiro que da acesso com a cozinha e sala. Fechou a boca da jovem e pressionou seu corpo contra a parede.

Brienne lutou para livrar-se das mãos de Karl, mas a diferença entre as forças era grande demais.

― Acalme-se… ― falou suavemente. ― Por favor, Brienne, me escute antes de tirar conclusões precipitadas.

Seu peito subia e descia pesadamente, seus olhos continham algo que ele não havia visto mesmo quando ela tinha acordado com um estranho ao lado. Nos olhos da garota de cabelos ruivos havia pavor. Um medo quase irracional.

Karl esperou que ela ficasse mais calma antes de tirar a mão de sua boca e soltá-la. No mesmo instante ela deu dois passos para trás, quase se virando para correr, mas no fim voltou a encara-lo.

Havia desconfiança em seus olhos.

― Você não é humano ― disse ela friamente. ― Essa coisa de metal nas suas costas… Essa força sobre-humana mais cedo… Você só pode ser um Lemurian!

No começo quando havia recebido aviso do doutor para ser cuidadoso ao revelar Engrenagem Divina, El Ragnall Gear Hexe. Pensou que fosse um exagero, mas agora Karl entendia o motivo do aviso do doutor.

O doutor havia explicado para Karl que os povos atuais haviam travado uma guerra sangrenta contra uma raça chamada de Lemurian, adoradores dos Deuses de Aço. Um povo que aprimorava seus corpos com partes cibernéticas, tornando-os fisicamente e mentalmente superiores aos demais povos. E também mais frios e cruéis.

Os Lemurian eram um povo que acreditava fielmente que sua missão na terra era converter os povos livres de Helgard em seres mais metal, mais máquinas, perdendo tudo que os tornavam humanos. No que veio a ser conhecido como Guerra da Conversão, muitos povos foram convertidos em Lemurians.

Foi nessa era, vendo a ameaça que os Lemurians representavam a todas formas de vida, nações se uniram formando o maior exército que já marchou pelo continente. Através de muito sangue e sacrifício, os povos livres derrotaram os poderosos Lemurians – seus poucos sobreviventes fugiram para as profundezas da terra.

― Olhe nos meus olhos ― Karl disse pacientemente. ― Por acaso pareço com um Lemurian? Por acaso, você sinceramente acredita que eu deseje te fazer algum mal?

Brienne olhou nos olhos de Karl, tentando ver através de qualquer mentira. Ver qualquer traço de insinceridade em seus olhos… Mas não encontrou nada além dos olhos de uma pessoa cheia de uma determinação inexorável.

Karl hesitou em usar as próximas palavras – sabia que caso falasse aquelas palavras, não haveria mais retorno, mas não tinha escolha. E também não desejava ver aquele belo par de olhos azul-esverdeado cheio de medo e desconfiança.

Apesar do pouco tempo que havia a conhecido, gostava da presença da garota de cabelos ruivos.

Depois de fazer sua decisão, disse as palavras que sabia que se arrependeria no futuro.

― Você é minha garota ― disse Karl pausadamente. ― Não deveria confiar mais em mim?

Ao ouvir aquelas doces palavras, no mesmo instante o medo e desconfiança desapareceram de seu coração, mudando para um sentimento quente e agradável de vitória. Depois de olhar melhor para Karl era obvio que ele não era nada parecido com as gravuras e descrições de um Lemurian.

Brienne soltou um suspiro aliviado. Realmente estava assustada com a possibilidade do único homem que chegou a confiar em sua vida fosse um maléfico Lemurian.

Vendo o olhar cheio de ansiedade de Karl, resolveu aproveitar-se um pouco da situação, para torna-los mais próximos.

― Essas palavras me parecem meio vazias ― disse ela estreitando seus olhos. ― Prove que realmente sou sua garota!

Karl soltou um suspiro de resignação. Como ele não poderia saber que aquela pequena raposa astuta estava querendo aproveitasse da situação?

― Como?

Ela caminhou elegantemente até Karl, segurando suas mãos, guiando-o de volta para o banheiro.

― Por hora, como sua garota… Eu devo lavar suas costas. Se eu fizer isso, sinto que posso confiar em você novamente. Algum problema?

― Não… Mas, só lave as costas, tudo bem?

― Claro, pensou que eu tocaria… Nesse “monstro”? Seu pervertido!

Karl queria chorar.

Cantarolando, Brienne lavou as costas de Karl com bom humor.

Nenhum dos dois havia percebido, mas durante a cena no corredor, havia um par de pequenos olhinhos inocentes na cozinha vendo sua irmã mais velha e seu novo irmão mais velho, totalmente nu – em seus olhos pareciam estar jogando um com o outro.

Quando eu crescer quero ser como o irmão mais velho, pensou ele desejando ter o porte físico de Karl. Por que sabia que apenas pessoas fortes tinham corpos como aquele. O que será que eles estão fazendo no banheiro?

Para essa pergunta feito na cabeça de Nicolas, ninguém poderia responder – além dele mesmo.

Anúncios

3 comentários em “Crônicas de Helgard: Capítulo 16

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s