Crônicas de Helgard: Capítulo 17

Uma Conversa Noturna!

 

 

 

Era noite. A sala escura era iluminada pelas chamas da lareira. O pequeno Nicolas havia adormecido enrolado em peles. Karl estava sem camiseta, sentado no chão em frente à lareira sobre peles de bestas mutantes. De joelhos atrás dele, Brienne tocava as costas dele com as pontas do dedo, sentido seus músculos explosivos. E depois traçou o dedo sobre o exoesqueleto ao longo da coluna vertebral.

Através das pontas dos dedos também podia sentir a alta temperatura corporal dele.

― O que exatamente você é Karl? ― perguntou, olhando curiosamente para as barra azul e vermelho no exoesqueleto.

― Essa é uma ótima pergunta ― respondeu Karl, observando o bruxulear das chamas. ― Por onde devo começar?

― Por onde achar melhor, mas, não minta para mim ― ela fez uma careta. ―Se não quiser contar, não conte. Só não minta. Odeio mentiras.

― Então vamos começar pelo princípio…

Então Karl contou a ela parte de sua história. Omitindo apenas sua vida passada na terra e a conversa com o doutor, narrou seu despertar até sua chegada ao vale das tumbas dos gigantes. Brienne ouviu o relato da fantástica jornada de Karl pelas terras esquecidas em silêncio.

Sua cabeça fervilhava de perguntas, mas conteve-se, aguardando o final da história. E quando Karl terminou te contar sua história, Brienne estava espantada e tão absorvida no cenário descrito que não sabia o que falar.

― Essa é minha história ― concluiu ele. ― Como pode ver, não sou totalmente humano. Sou um Arcanista, mas se perguntar o que sou exatamente, não saberei responder. Não tenho um lugar que possa ser chamado de lar. Sem família. Amigos. Uma pátria. Vaguei aleatoriamente sem rumo. Sem um destino… Uma página branca.

― Uma página em branca cheia de potencial ― observou ela. ― Você pode ser o que quiser. Não tem uma pátria? Escolha uma! Sem amigo? Crie laços! Sem destino? Forje-o! ― ela se ergueu, com os pés desnudo afundando na pele, andou até a frente de Karl e sentou-se em seu colo. ― Não tem uma família? ― seus braços envolveram o pescoço de Karl e falou bem baixinho: ― Faça uma…

Brienne fechou os olhos e ergueu a cabeça, aproximando seus lábios ao dele.

Karl estaria mentido se dizer que não foi abalado pelas palavras da jovem ruiva. Estaria mentido se dizer que não estava gostando da sensação dos braços dela ao redor de seu pescoço, do calor corporal, da fragrância de seu cabelo e pele, da visão de seus pequenos lábios rosados pedindo por um beijo… Ele gostava de tudo isso, mas… Mas, ele sentia um peso no coração. Sabia a razão de ela estar se esforçando tanto, e qualquer coisa que fizesse seria como se estivesse aproveitando dela.

Não… Isso não é verdade, pensou Karl. Uma desculpa que digo para mim, por que tenho medo do que ira acontecer uma vez que eu a beije… No fim sou apenas um covarde, sem qualquer experiência com mulheres.

Karl virou a cabeça, deixando-a beijar seu rosto.

Brienne o encarou com raiva.

― Por quê?

― Eu sei a razão de você estar fazendo tudo isso ― respondeu ele. ― Como eu disse mais cedo: não precisa se esforçar…

― Sou sua garota ou não? ― perguntou ela, interrompendo-o.

― Bem… Tecnicamente falando… N…

― Me pergunto se você realmente não é um Lemurian?

Brienne fez uma careta, fingindo medo.

― Isso é chantagem… Sim, você é minha garota!

Ao ouvir a resposta de Karl mudou rapidamente sua careta, para um discreto sorriso.

― Se sou sua garota por que fugiu do beijo? Sabe quanta coragem tive que ter para oferecer meus lábios? Eu queria te encorajar, mas você… ― ela balançou a cabeça fingindo limpar uma lágrima. ― Como pretende me compensar por esse constrangimento?

― Que tal deixarmos essa conversa para outro dia? ― sugeriu, tentando fugir da conversa.

Karl sabia muito bem aonde terminaria a história, e provavelmente acabaria fazendo o que a jovem ruiva pedisse.

― Tudo bem ― ela concordou, sorrindo. ― Terei tempo para pensar em que posso pedir como compensação.

Karl suspirou em resignação.

Brienne descansou sua cabeça no peito dele – ouvindo as batidas vigorosas do coração de Karl.

Quando conheceu Karl ela fez o que fez para ficar mais próxima dele, mas aos poucos, mesmo que tivessem acabado de conhecê-lo, começou a gostar verdadeiramente de Karl – principalmente após ele ter a protegido dos bandidos. E esse sentimento aumentou ainda mais depois de ouvi-lo narrando sua história, sentindo-se ainda mais atraída por ele.

Brienne via em Karl alguém que se pode confiar e depender.

Ele disse que vagou sem rumo pelas terras esquecidas, pensou Brienne. Mas, talvez os deuses tenham o guiado até mim. Ele não só salvou minha vida naquele dia, mas também a mudou.

Desde que ela havia conhecido Karl, vem experimentando sentimentos que nunca havia sentido antes. Era uma experiência agradável, mas também a deixava com receio. Não saia como lidar com esses novos sentimentos.

Os dois ficaram em silêncio ouvindo o som de crepitar das chamas.

― Graças a suas peles não vamos passar frio essa noite ― disse Brienne, quebrando o silêncio. ― Em Ansgar as noites são frias, independente da época. Claro, durante o inverno é muito pior. Quase não sobrevivemos ao último inverno.

Viajando pela as terras esquecidas, Karl teve que dormir ao ar livre. E nos primeiros dias descobriu que as noites eram extremamente frias. Se não fosse por suas roupas que tem a capacidade de manter a temperatura corporal, teria morrido congelado há muito tempo.

― Você não vai precisar se preocupar com o próximo inverno ― disse ele, meio sem jeito. ― Por que estarei aqui.

― Espero que sim… Karl… Sua temperatura é tão agradável, muito melhor do que a lareira… Tão quentinho…

Brienne se aninhou ainda mais nos braços de Karl, fechando os olhos, caindo lentamente no sono.

O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar do fogo e a suave respiração da jovem ruiva.

Karl a pegou delicadamente nos braços e a colocou de lado, cobrindo ela com o cobertor de peles. E depois deitou, com as mãos atrás da cabeça, pensando em tudo que havia acontecido e o que poderia acontecer daqui para frente.

― É um pouco desconfortável sem os confortos da modernidade, mas essa vida não é nada mal.

Karl fechou os olhos e pela primeira vez desde que chegou nesse mundo, dormiu sob o teto de uma casa.

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