The Sound of Fog

Arco II (parte I)

Para guerra, a força; para a alma, vingança!

Capítulo 8 – O novo jovem!

Com a cabeça latejando de dor, Dois Meia acordou, amarrado, dentro de uma estranha sala que mais parecia ser um dojo.

onde estou?’

Seu corpo estava de bruços ao chão, com suas bochechas encostadas na madeira lustrada fria da sala. Ele apenas via uma estante de livros ao longe em sua visão limitada.

olá, menino!”

Em sua frente, vestida com um belo vestido vermelho, uma moça, bem bonita para ser exato, sentou no chão, de pernas cruzadas, bebendo, numa xícara fumegante, o que parecia ser chá, tapando a vista da estante de livros.

Seus olhos, cor de âmbar, encaravam, penetrantemente, Dois Meia, e o seu cabelo negro esvoaçante destacava os lábios rosas que bebiam, pacientemente, da xícara.

você quase morreu” Disse a bela dama; “aquela moça que te trouxe queria te matar, porém eu pensei: ‘que segredo esse garoto guarda para ser tão especial assim?’. Decidi mantê-lo vivo, sabe, para saciar algumas questões.”

Nosso protagonista, amarrado, tentou olhar para o alto, porém, com os seus pulsos prensados contra a sua virilha, Dois Meia mal conseguiu se mexer. Ele apenas se arrastou futilmente pelo chão.

primeira pergunta: por que você está com a aura de Franker? Ela é bem fraca, parece que ele te passou recentemente. Qual o motivo para tal, por que ele te faria de herdeiro?”

“…”

você não responderá? Okay! Quero dizer, apenas sua vida está em jogo … nada mais!”

“…”

ainda não quer responder? Tudo bem …”

Após proferir a frase, moça colocou a xícara num prato e se levantou, lentamente. Indo em direção a Dois Meia, a dama lançou seus braços esguios e pegou-o pelo colarinho, suspendendo-o no ar.

Encarando-o com certa repulsa, a moça disse, sussurrante, num tom ameaçador.:

você tem dois minutos para me dizer o que houve, compreende?”

Dois Meia tremeu enquanto encarava, apavorado, a bela moça, que com um rosto severo, quase vomitava em cima do repugnante ser fraco que ela suspendia.

agora você tem um minuto e meio! Acho melhor falar, você tem bem menos a perder com isso!”

Dois Meia percebeu a postura da dama – ele havia se acostumado com esses olhares – e, com os seus lábios trêmulos, se pôs a falar com dificuldades.

eu o encontrei … encontrei … num beco … um velho …”

velho?”

um homem velho de cabelos grisalhos … ele tinha uma ferida no peito … sangrava demais. Eu troquei três palavras com ele antes do mesmo morrer, eu saí do local logo depois dele fechar os seus olhos!”

essa é a sua história? Você tem mais trinta segundos para me convencer!”

Dois Meia olhou para o seu pulso.

esse homem velho pegou em meu pulso … por um momento. Brilhou numa cor dourada e eu não sei … um sentimento estranho percorreu o meu corpo, eu acho. O velho desde então aparece em todos os meus sonhos …”

A moça ficou surpresa, sua boca abriu, seus olhos se arregalaram. Ela entendia, talvez, um pouco de suas palavras, por mais que fossem um tanto cruas.

então é isso, bem …”

A moça se aproximou de Dois Meia e, com um estranho movimento, cortou as cordas que limitavam o seu corpo.

Nosso protagonista se levantou, sentindo-se aliviado e olhou para a moça com alguma paranoia. A dama, no entanto estava imóvel, olhando ao solo, refletindo pavorosamente.

pergunta: agora que você não está mais amarrado … o que fará?”

como?”

você agora tem o poder de escolher o que deseja e eu me pergunto o que você fará? Será que o senhor vai voltar a sua antiga vida diária, ou será que o senhor busca algo a mais?”

O rosto da dama estava inexpressivo, não parecia que ela realmente se importava com a resposta, porém Dois Meia, sem entender necas de necas, sentiu que devia falar tudo de uma vez só.

eu desejo a força … nada mais!”

A dama sorriu carinhosamente destruindo os sentidos de Dois Meia, pois a beleza inspirava algo e a lógica defensiva de nosso protagonista, outra. Ele ficou com medo repentinamente.

vejo que é isso … bom, já que é assim, vou te fazer uma proposta: você quer que eu te dê poder? Em troca, apenas te quero!”

Como?’

Na confusão mental de Dois Meia, aquilo não se era esperado. O que ele poderia dar para ela? Ou pelo menos: o que ela desejava dele? Quem ele era e será que ele era tão importante assim?

Dois Meia caiu em diversos cálculos complexos, porém não chegou a lugar nenhum.

qual a sua resposta, jovem?”

eu aceito!”

Dois Meia, sem entender, respondeu. Ele não soube o motivo, porém respondeu e isso o deixou, por um segundo, abismado. Mas no fundo, talvez, ele apenas sabia que a resposta era a única linha que dividiria todo o seu futuro dali em diante.

ótimo!” A dama bateu palmas alegremente; “eu gosto quando as coisas são rápidas!”

A moça levantou o dedo indicador apontando para os céus.

agora você será aquilo que eu criarei e nada mais!”

Num movimento rápido, ela golpeou, com o seu dedo, a boca do estômago de nosso protagonista, que, com o impacto maciço do golpe, teve seu rosto distorcido para a pura dor!

Isso’ O tempo por um minuto parou na consciência em choque de Dois Meia; ‘o que ela fez?’ E se retomou, apenas, quando um estalo, em alto som, gritou e uma explosão de ar surgiu, fazendo com que os cabelos e as poeiras voassem num turbilhão e se desajustassem da harmonia silenciosa da sala.

você será a prova que eu preciso, apenas!”

A dama tinha um rosto neutro, com apenas um sorriso, o que para Dois Meia era, terrivelmente, assustador.

[argh!]

Dois Meia viajou a sala toda colidiu com a parede e sua consciência padeceu.

Sem saber o que acontecera, nosso protagonista outra vez se viu num idílico mundo de sonhos.

Capítulo 9 – prelúdio para o início!

nosso último encontro foi extremamente breve, eu sei, não deu para nós trocarmos muitas palavras.” Acordando, de repente, num mundo colorido, flutuante, Dois Meia se viu em frente a um velho sem barba, porém ainda com os seus cabelos grisalhos; “vou te explicar muitas coisas aqui, por isso preciso da sua atenção!”

O garoto olhou para todo o cenário, buscando algo, esperando uma revelação.

fale …”

Dois Meia disse, um pouco irritado, por suas próprias palavras.

como? Escutei direito? Parece que você não é mais tão cético quanto a minha existência agora, não é?”

O velho, no entanto, apenas sorriu perante a fútil demonstração do jovem contra ele.

apenas fale …”

tudo bem, tudo bem. Vejo que ser arrastado por essa reviravolta de eventos é um pouco irritante, eu sei, por isso vou me dirigir ao principal: quem sou eu?”

“…”

eu sou o criador de uma arte marcial bem peculiar, obrigado por perguntar, uma arte marcial bastante perigosa e odiada nesse mundo orgulhoso. Tente adivinhar o porquê?”

o porquê do que?”

o por quê dela ser peculiar, perigosa e odiada?”

não sei … por ser … hum … não sei!”

não quer ser visto como um idiota por dar a resposta errada?” As bochechas de Dois Meia coraram; “okay … meu estilo era único por ser de todos e o meu estilo era perigoso pois poucos o buscavam! Consegue entender?”

não …”

bem, vou te explicar … veja: um estilo em que todos poderiam praticar e absorver era o que eu criei, porém ele não era algo que muitos poderiam ter, ou sequer fazer. Consegue me entender?”

não!”

você é um imbecil. O meu estilo era como um sonho: todos poderiam ter um e cultivá-lo, porém poucos poderiam torná-lo real.”

Por um segundo, a mente de Dois Meia dissipou em uma contemplação ligeira, porém, em seguida, todo o seu ser desdenhou outra vez do velho. Essa era uma antípoda que nem ele mesmo entendia.

então todos te odiaram quando viram os seus sonhos irrealizados?”

O velho sorriu.

quase isso: todos me odiaram quando viram morrer, devagar, as suas esperanças de se tornarem algo além deles mesmos!”

Os olhos do nosso protagonista se arregalaram.

as pessoas não se veem culpadas quando o mundo desmorona, elas apenas se sentem culpadas quando não há mais ninguém a se culpar.”

[boom]

O mundo idílico começou a desmoronar.

nós não tivemos muito tempo, entendo. Bem, aceite tudo que essa mulher disser, você está prestes a se tornar a primeira pessoa antes de renascer!”

Dois Meia sentiu uma enorme tristeza no peito.

não se preocupe! Não importa o quanto você é fraco, enquanto desejar ser forte, todas as portas estarão sempre abertas! Agora adeus, não durma tão cedo, recomponha-se, viva!”

O mundo, por fim, se quebrou até o breu total e o velho, apenas voou para lugar nenhum como poeira dourada …

Capítulo 10 – O início!

Outra vez Dois Meia acordou, porém dessa vez ele se encontrava numa confortável cama, com lençóis de seda e colchão macio como um pão de queijo. Ele estranhou: suas almofadas quentes poderiam esconder uma navalha e ele já se preparava, com o peito, para receber qualquer coisa que o fosse infligir.

olá …”

Da porta do belo quarto escuro, uma moça entrou segurando uma bandeja que fumegava. Ela continha um sorriso estranho, indescritível, no rosto, parecendo que havia ali um misto de felicidade e curiosidade.

quem é você? Me matará?”

A garota, com o seu cabelo castanho claro que escondia um dos seus olhos com uma longa franja, continuou andando com um sorriso no rosto.

Dois Meia não compreendeu enquanto se arrastava na cama com medo da curiosa figura que se aproximava. Seu coração, apertado, já sofrera demais com os ataques repentinos das belas moças que apareciam em sua triste vida.

oh … entendo. É normal sentir medo quando tudo parece abandonado!” A garota se sentou ao lado de Dois Meia e colocou a bandeja de lado, enquanto pegava, ternamente, nas mãos trêmulas de Dois Meia; “porém, antes de tudo, deixe-me explicar algo, para você não entender errado a minha mestra: nós salvamos sua vida. Seu corpo estava cheio de radicais livres e um tumor já nascia em seu pulmão, você sentiria os sintomas em menos de uma semana!”

Seus olhos verdes brilhavam intensamente e o rosto de nosso protagonista corou. Porém, após pensar um pouco em tudo que a menina disse, Dois Meia arregalou os seus olhos.

espera?”

eu sei, parece demais” A garota respondeu com um sorriso; “porém eu falo isso com convicção: aquele golpe, de minha senhora, que o desmaiou, estava repleto de uma estranha magia! Essa magia salvou sua vida!”

Nosso protagonista se perdeu no delírio da garota, já que ele não sabia, ao certo, suas palavras, porém era um absurdo. Ele morreria? Então como alguém o salvou de tal destino? Toda a frase da garota em sua frente era uma grande balela traduzida as boas línguas que o mantinham completamente cético quanto a tudo.

pare com isso!” Uma mulher adentrou o quarto vestindo uma roupa exótica, bem parecido com um quimono japonês; “ele não entenderá a verdade a menos que a verdade seja dele também.”

O rosto da menina corou, Dois Meia não entendeu.

faça um chá para mim. Deixe-me a sós com o nosso mais novo membro!”

sim senhora!”

A menina saiu do quarto, com o passo apressado. Enquanto isso, Dois Meia olhava atentamente para a mulher que se apresentava: ela era a mesma que o havia golpeado.

bela bandeja, essa menina é muito atenta.” A mulher, com os seus dedos furtivos, tocava nos lençóis com alguma sagacidade discreta, onde buscava algo incerto; “o nome dela era 137.248.569, agora se chama Anne. Eu escolhi esse nome pois combina com ela … acho que você não vai entender, não tem referências para tal, mas acho que vou explicar: Anne Frank foi …”

De volta o quarto, Anne reapareceu, tímida.

Senhora, desculpe, porém não me disse qual chá?”

A dama olhou de um modo passivo, neutro, sem mostrar quaisquer sentimentos.

fica ao seu critério!”

Anne, perto da porta, abaixou a cabeça e sumiu outra vez no corredor.

Nosso protagonista, atônito, fitava a bela dama em sua frente.

Continuando minha história: Anne Frank foi uma menininha judia que morava na holanda (uma antiga nação antes da grande queda*) durante a segunda guerra mundial. Ela passou três anos de sua vida dentro de um anexo, com medo, enquanto dividia sentimentos com os outros moradores daquela triste moradia.”

Dois Meia entendeu necas.

Sua cabeça foi levado por aquela torreta de palavras sem significado.

ela morreu, jovem Dois Meia, morreu de tifo num campo de concentração, junto com o seu medo e todos os outros sentimentos. Por mais que ela tenha sido uma heroína e testemunha dos malefícios nazistas, não se pode vê-la em algo além de uma vítima. Ela foi esquecida, óbvio, no nosso novo mundo a história morreu, porém ela é um bom exemplo de fraqueza, uma fraqueza que embuti no nome de minha discípula para ela nunca se esquecer das malezas do ser fraco.”

Dois Meia olhou para a moça e a moça olhou de volta. No coração de Dois Meia, cada palavra foi sentida como uma facada.

bem …” A dama sorriu, mostrando uma estranha face acolhedora bem distinta a toda aquela inexpressão que Dois Meia já vinha se acostumando; “com esse rosto de desentendido, vejo que palavras confusas não são mais necessárias. Coma, mais tarde alguém virá aqui para te instruir.”

A moça acariciou a bochecha de Dois Meia com a palma da mão e andou em direção a porta, porém, antes de sair de todo, a moça parou e olhou outra vez para o nosso protagonista.

aliás” Ela disse num tom de voz sereno; “meu nome é Um, por favor, não se esqueça*”

uh … okay!”

A dama então saiu, esbeltamente, em direção aos feixes de luz oblíquos que invadiam o quarto.

eu não entendo.’

Dois Meia abaixou os seus olhos, sem entender, sem falar, ele apenas olhou para os lençóis de seda e para a fumaça que invadia suas narinas.

será que é certo?’ Dois Meia pensou; ‘será que é mesmo certo eu está aqui? Minha vida deu um largo salto e eu preciso aceitar, porém, uma parte ainda sensata de mim mesmo sente que estou escalando um castelo de areia … se ele desmoronar … morrerei?’

Em meio aos seus ponderamentos, o estômago roncou e Dois Meia, percebendo a situação crítica da sua fome, roubou um prato com o que parecia ser uma sopa misteriosa, com coisas das quais ele nunca viu na vida boiando alegremente pela superfície do ‘lago culinário’.

Dois Meia pegou uma colher de pau, que estava na bandeja, e tomou um gole da sopa: sua alma paralisou e o seu ser contemplou, exclusivamente, aquilo que suas papilas gustativas tatearam com tal afinco e prazer.

Nosso protagonista comeu tudo que havia na bandeja, sem exceção. Essa era a monstruosidade da fome de dois dias que 162 havia cultivado sem sequer perceber.

Capítulo 11 – O golpe das sombras!

Ninguém veio instruí-lo. O tempo passou e ninguém sequer veio para falar qualquer coisa com ele. Ele decidiu sair de seu quarto, então, com uma bandeja vazia na mão, para se perder, em seguida, pelo corredor. Ele não sabia ao certo como chegara e fazia menos ideia ainda de como sair, forçando-o a olhar confuso de um lado e para o outro buscando algo como referência.

Ele andou em direção a esquerda, continuou sem saber para onde ia pela direita até que se viu em frente a um quarto, com uma porta de madeira clara com uma placa escrita ‘Maid-0’. Ele bateu à porta, inocentemente e ‘um quem é?’ surgiu no silêncio do corredor.

A porta se abriu, sem fazer ruídos, e uma mulher apareceu vestida com um longo vestido preto com detalhes brancos e uma toquinha branca.

oh!” Ela disse com um pouco de espanto; “você é o … 162 … correto?”

Dois Meia concordou com a cabeça enquanto olhava admirado para a moça.

sim, sou eu … pode me chamar de Dois Meia!”

A moça tinha uma aparência jovem, como se ela ainda tivesse nos seus vinte anos, porém mantinha um ar ancião, como o de uma avó ou uma tia.

Minha senhora tinha me requisitado para ir até o seu quarto guardar sua louça suja” Ela disse com o seu ar sereno e sábio “porém, vê que você se voluntariou para vir até aqui me entregar os seus pratos me enche um pouco de surpresa! Bem já que é assim, me dê isso que eu levo para ser lavado!”

Nosso protagonista deu o prato relutante enquanto olhava para o chão, tentando resgatar um pingo de coragem. Ele compreendeu bem a moça, entendeu bem suas intenções e isso o havia dado alguma confiança, porém ainda havia em sua cabecinha uma paranoia. Uma paranoia que ele não entendia muito bem.

o que eu faço agora?”

0 não entendeu.

o que você faz? Não sei, você que sabe, eu apenas colocarei seu prato na cozinha, o resto você decide!”

As palavras foram breves e vagas, porém preencheu Dois Meia com um medo indescritível.

como assim eu decido?’ Ele se perguntou; ‘como isso pode ser possível de alguma forma!’

Desde o início Dois Meia foi jogado para um turbilhão de fatos que se desdobraram sem o seu consentimento, ele não sabia ao certo mais como decidir algo, tudo parecia se autodesenvolver, tornando essa pergunta totalmente ameaçadora ao nosso jovem.

não fique parado aqui” a moça olhou para Dois Meia com um rosto severo, bem contrário que ele tinha visto segundos antes; “decida-se logo o que fazer e abra espaço para aqueles que já se decidiram!”

A moça empurrou Dois Meia de sua frente e falou baixinho enquanto olhava com o canto do olho:

um morto é um homem fadado ao mesmo! Enfia suas dúvidas na goela e apenas faça!”

Dois Meia, como de praxe, não entendeu necas do que a moça disse, apenas ficando parado olhando ela virar pelo corredor. Na nuca, atrás dos seus esvoaçantes cabelos negros, uma cicatriz pouco visível foi meio observada pelo nosso protagonista confuso e inerte.

eu gostaria de entender … cada coisa’ Dois Meia se virou e andou; ‘parece que eu ainda estou vivendo minha antiga vida, como se tudo fosse o mesmo ainda!’

Dois estava pensativo enquanto virava a esquina do corredor passando em frente a uma porta com uma placa escrita ‘Anne’. Ele percebeu que, talvez, para não ter que decidir, ele deveria pensar, porém precisava se locomover e pensar, para ficar, de alguma forma, fora do mesmo, segundo ele mesmo.

parece ser um pouco errado essas palavras, possivelmente morrerei ao virar o corredor, porém creio que há uma vida para mim aqui, ou melhor: parece que terei algo novo caso eu fique aqui!’

Dois Meia virou o corredor mais uma vez e seu peito bateu fraco, ver-se ainda vivo o impressionou bastante.

aparentemente ainda estou vivo, esse é o preço de ter tomado tantas decisões ontem – decisões que na verdade não foram tantas de verdade, apenas uma. Será que ainda sou o mesmo de verdade? Vejo que sim … porém, sinceramente, espero mudar de alguma forma.’

Olhando para as paredes brancas e piso de madeira, nosso protagonista continuou pelo corredor sem janela até descer uma escada, se encontrando numa sala estranha, escura e fria. Dentro, fotografias diversas de políticos, máquinas de guerra*, máquinas urbanas*, de relevos e ambiente, fotos panorâmicas e de qualquer outra coisa aleatória que pudesse se supor, se encontrava penduradas em linhas de neon pela sala.

fotos?’ Dois Meia que foi criado sem riquezas, nunca havia visto fotos que não fossem de propagandas, ou das teletelas que haviam nos bares e no trabalho – por mais que não gastasse muito tempo vendo-as; ‘o que são essas coisas?’

Ele ficou analisando as fotos uma por uma, tentando buscar alguma resposta.

fotos de mortos, fotos de armas, fotos de explosões, de engravatados*, de terra, de lugares bonitos … por que há tantas fotos assim? O que elas representam!’

Enquanto andava pela sala, vendo foto por foto, Dois Meia viu um fantasma. Esse fantasma, pálido, ia de lado a lado, tentando se esconder de sua vista, carregando em mãos algo mais frio que a morte, que refletia a quase escuridão da sala. Ele viu de relance atrás de relance, como se fosse uma ilusão de sua cabeça.

será que isso é um dos efeitos colaterais do golpe?’ Dois Meia continuou acompanhando as luzes; ‘mas para isso a magia daquela mulher terá que ser real … e eu teria que acreditar nesse absurdo …’

A luz se aproximava e Dois Meia não sentia muitas coisas, a não ser uma terrível contemplação quanto a sua própria loucura.

estou ficando preocupado, ver coisas do gênero pode ser um presságio extremamente ruim!’

O fantasma pulou e Dois Meia viu, lentamente, passar pela sua frente a pálida luz que visava o seu pescoço. Ele não entendeu o que a sua própria loucura planejava fazer, porém ele desviou, facilmente, sem compreender o próprio movimento, e pegou, com suas mãos fracas, aquilo que a luz pálida tencionava a ser.

mas o que?!’

Sem compreender ao certo, as luzes se ligaram na sala, apresentando um atônito fantasma de longos cabelos castanhos e intensos olhos verdes. Seus lábios, sem compreender o porquê de seu corpo estar imóvel a mercê do jovem magro e pouco treinado à sua frente, se contorceu a uma expressão horrível de ódio.

desgraçado!”

Anne chutou o estômago de Dois Meia e deu uma joelhada no seu pescoço. Enquanto caía, a jovem, com a ponta de sua faca, tentou atravessar a testa de um protagonista aturdido! Ela sentia um turbilhão de ódio em seu peito, misturado mais ainda com desprezo próprio e impotência perante o movimento de nosso protagonista.

pare Anne” Disse Um, que saía do brilho intenso das luzes recém-acesas; “veja a luz, ela diz para parar … você continuou por um ódio bobo, insensato. Você não pode crescer enquanto mantém esse temperamento: aceite a derrota para não se destruir; aceite a derrota para voltar mais forte!”

Dois Meia, que estava deitado se contorcendo para respirar, olhou para cima, com ódio, em direção a Anne, que estava montada em ti, e a Um. Ele não entendeu o motivo de ter sido atacado, porém pensava:

que infernos essas duas querem comigo!’

e você, jovem 162 …” Um se voltou para Dois Meia enquanto Anne saía de cima; “porque parou de se defender? Você desviou do primeiro golpe, porém, quando as luzes foram ligadas, você apanhou!” Os olhos de Dois Meia pareciam querer pulverizá-la; “oh, não me olhe assim! Foi você quem parou de lutar, não eu! O que queria que fizesse, lutasse por você? Se fosse assim, a única a ficar forte seria eu, e não você!”

Um golpeou o pescoço de Dois Meia com dois dedos. O local atingido vibrou, parecendo que todos os músculos da região tivessem se tornado apenas água.

você está aqui para ficar mais forte!” Terminou, por fim, Um, ajudando Dois Meia, que já respirava melhor e não sentia nenhuma dor, a se levantar; “busque a força, e terá bem mais do que eu te darei no fim!”

Dois Meia tocou a região do pescoço tentando pensar um pouco sobre tudo, porém Um continuou falando, desconcentrando-o totalmente.

agora me siga: iniciaremos o seu primeiro treino físico, meu jovem!”

Nosso protagonista olhou, um pouco cético para Um, porém ele decidiu seguir. Independente do que acontecesse dali para frente, de alguma forma, seria decisão dele, logo, valeria toda a pena arriscar!

Lore – TSF

Grande Queda – Foi quando o planeta terra entrava no ápice do colapso ambiental, tornando a vida na terra impossível para a humanidade se sustentar e viver.

Máquinas de Guerra – Nome dado a todo soldado adaptado que vigia as fronteiras das setes sitiadas em expansão.

Máquinas Urbanas – Nome dado a toda máquina autônoma responsável por construções civis ou empregos de baixa renda no comércio.

[…] Não esqueça do meu nome” – Quando o governo das setes sitiadas em expansão decidiu tomar o nome de todas as crianças de baixa família como números, um grande receio social, entre os mesmos, veio, principalmente em questão de identidade.

Engravatados – Políticos e Capitalistas em geral.

Nota do Autor:

Lançarei a segunda parte do arco semana que vem, é um pouco difícil trabalhar a novel, por isso demora bastante pra sair os capítulos.

Sei que esse arco não deu para ver muitas coisas, porém eu gostaria que comentassem sobre a série.

Boa leitura!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s