GartenGüt (O Jardim dos Deuses)!

Capítulo XVII – O Homem de Barro (Bhagä VII)!

L – L’Antima bhagä d’Er Shava’khün (A última parte para o homem de Barro)!

somos carnes e também somos espíritos; somos uma harmonia desarmônica que destrói todas as coisas perfeitas desse mundo … quero dizer, vocês …

Na cocha direita de August, dentro de um enorme templo, sangue espirrava, com uma intensidade fatal, fazendo o tolo ser que ofegava repensar em todas as suas ações e observar cada consequência fútil que se apresentou diante delas.

Ao mesmo tempo, uma voz calma, um pouco horripilante, e natural, ecoava pelas paredes de pedra, percorrendo pela nave* do templo, até se finalizar nos ouvidos ruidosos.

a carne, que é destrutiva, quer ser satisfeita até dizer chega, o que é irônico, pois a alma, pura, deseja manter as coisas como são, sem excesso nem escassez, apenas o suficiente …

Madchënit e Khar’Sorim estavam parados, tirando os cacos que doíam seus ombros, enquanto olhavam para escuridão, perfurada pelo pútrido cheiro de poeira. Uma figura saía de lá, enquanto August segurava os seus gritos, em orgulho, reconhecendo a figura que se apresentava apenas pela aura que o ser emanava.

onde eu quero chegar? Bem, em nenhum lugar, diferente de seus amigos, que fugiram por aquela escada de pedra … o que não é demérito, sabe, já que tudo na vida do homem é predestinado. Curioso, não é? August Adorn …

sim, sim … – A figura tinha um rosto calmo, como as planícies, e uma barba branca, que parecia uma floresta sob a neve; Sua figura anciã irradiava uma vitalidade atípica, com um sorriso questionador, como os bons professores o têm.

August, no entanto, não tinha tempo para pensar nisso, pois que, com a cocha espirrando sangue, sua vitalidade caía, regressivamente, e talvez pudesse se esgotar antes do claro dia.

Ele então respondia, da forma como a condição permitia:

feche essa merda antes que eu morra, e depois discutimos essa filosofia barata!

O ser não se zangou com as palavras atrevidas, porém também não agiu como indagado, apenas se mantendo na inércia, com suas palavras (Oh belas palavras) que desfalecia os dois juvenis caídos, de olhar preocupado, cujo o ombro sangrava, de forma não tão fatal, mas, ainda assim, doloroso:

os seres humanos pensam melhor perante a morte, pois é apenas neste momento onde a carne e o espírito se tornam um, nos seus vagos interesses. Os anos me contaram, por isso agora estou aqui, e não morto, como tantos irmãos …

vejo que será uma história fantástica … – a face de August passava a palidecer, o sangue sobre o solo lhe deixava fraco, e as unhas se quebravam ao agarrar fortemente o piso de pedra, na fútil tentativa de atenuar a interminável dor – porém não sei se vou escutar até o final, entende, tenho alguns probleminhas que podem me tornar ausente … em toda uma eternidade no inferno!

O ser riu e desapareceu, junto com August, para algum lugar da qual as pessoas sequer se lembram; para algo perdido no passado, deixando Madchënit e Khar’Sorim atordoados, sentados como estavam, com os ombros que se curavam!

mas afinal – Madchënit dizia com um rosto estranho – o que eles estavam falando?

não sei, mas … – Khar’Sorim respondeu enquanto tocava o seu ombro, tentando descobrir algo que fugia – creio que é algo extremamente importante.

realmente … eu senti a mesma coisa …

*

Numa cidade iluminada por lamparinas suspensas em postes de ferro, August e o ser apareciam, após uma pequena descarga enérgica, que não atrapalhava a vida cotidiana dos pequenos seres que ali passavam, sendo estes parecidos com símios vestidos de terno, mas que, curiosamente, demonstravam um ar mais inteligente do que os Varbenênts peludos das planícies.

August olhou e reconheceu: aquela era a bela Agui’Us funcional; a Agui’Us em seus dias de glória e brilho.

eu vejo … – August falou numa euforia, sem perceber que a dor não mais o acometia; – vejo tudo!

O ser sorriu.

que bom que você vê, porém digo que o senhor está errado. – respondeu o mesmo, se movimentando como a dançar, em meio as multidões que se esbarravam.

então esta não é? – August perguntou, rindo da imagem estranha que se mostrava.

não … infelizmente não! – e o ser então finalizou, com um sorriso vívido, de uma felicidade sem tamanho, onde, olhando para os profundos olhos castanhos, via-se a luz que costumamos vê nos idosos encantados, loucos para contar as divertidas histórias da juventude, já distante, todavia inesquecível.

veja bem August, quando os Khuroinis encontraram as ruínas dessa cidade, eles tiveram que pôr um nome e advinha qual eles colocaram? – o ser começou a explicar – Não … não precisa responder, é óbvio, porém existem um motivo do qual chamam de Agui’Us, e não é pelas cachoeiras perdidas, que mantém as plantações úmidas. Quando eles encontraram essa cidade perdida, a única coisa que conseguiram lê, olha que engraçado, eram duas palavras que se viam no portal de entrada, onde era exatamente Agui’Us. Sabe o que isso significa?

não … – respondeu August, curioso com a chuva de palavras que caíram em cima de si – mas deve ser algo relativo a cavernas, não?

O velho mais uma vez riu, dessa vez mostrando um sarcasmo.

quase … talvez na língua arcaica do quarto reino (algo que você não deve saber ainda, entendo) … mas, na verdade, na língua divina, falada por todos em Châteu’der’gütter, Agui’Us significa “nossa terra”. Ou seja, para simplificar, Eu Sou sua terra August, Sou a terra de todos, Sou a verdadeira Agui’Us e essa cidade, tão famosa durante a desconhecida era do reino mágico, se chama Shava’Khün, ou, como vocês entendem na língua geral, O homem de barro.

August olhou para as ruas movimentadas, para as feiras que ocupavam as calçadas, os becos iluminados, as músicas que ecoavam, as vozes proferidas, o enorme espaço que se tornava pouco.

essa cidade é um corpo, literalmente falando, August, um corpo! – Agui’Us proferia – um corpo formado por células, tão pequenas e importantes, que nem mesmo parece que foram moldadas pelo barro! Sim, sou um louco pai com saudades, porém veja: é uma beleza que nem mesmo as orgias das ninfas de Élsser podem mostrar, é uma beleza atemporal! A beleza que o espírito civilizado das almas em harmonia demonstram!

Num momento, os dois seres que se destacavam entre os pequenos cidadãos se dissiparam, aparecendo dentro do que parecia ser um teatro, num estilo comum da belle époque* europeia.

olha, aquele homenzinho ali apresentará o quadro mais famoso de sua época, veja August, veja!

Sentado na cadeira, próximo do palco, era se visto o que aparentava ser um quadro, sendo descoberto de um pano branco, mostrando-se ao mundo dos pequenos homens abarrotados nos ternos cinzentos, com olhares extremamente satisfeitos com o que se mostrava: o quadro, simplesmente, era uma cena de um pequeno ser pagando por um saco de trigo, nada mais, nada menos, a não ser o fato da técnica expor tudo de uma forma bem próxima do que poderia se fazer com uma câmera fotográfica.

August não se impressionou, mas assentiu, já que o quadro representava toda a vida de um cidadão civilizado: o pagamento por um saco de trigo. Era irônico a imagem ser louvada, ao mesmo tempo em que não se poderia culpá-los, a vida na cidade era sobreviver com a cidade, por tal, os aplausos eufóricos, sendo que até mesmo Agui’Us caiu em prantos enquanto via com toda a emoção pulsante.

o que você achou?

maçante!

A imagem se desfez com a resposta, tornando tudo a se dissipar de volta a uma praça, reconhecida por August através das ruínas.

por que maçante? – Agui’Us perguntou, enquanto desfrutava de um doce, servido em uma tigela de madeira.

a vida na cidade é maçante. O cinza, as luzes, as pessoas. Nada é simples, ninguém é próximo de ninguém, muitas coisas são falsas, mesmo que tudo esteja tão próximo. Na cidade apenas dá para viver para si, por isso que o quadro é maçante, pois registra bem a base de se viver como civilizado.

curioso …

A imagem se dissipou por uma terceira vez, sendo que a vida da cidade era deixada para trás, tomando o caminho casto do templo, tão grandioso e repleto de imagens, mas tão vazio, sendo que apenas 4 pequeninos eram vistos, louvando um enorme ser, cujo o quadro se mostrava pendurado na mais alta parede.

os seres civilizados realmente vivem para si, por tão estranho que soa, já que são apenas as cidades os ápices de viver socialmente. Ou talvez isso seja apenas um achismo meu, já que no que observo, grandes cidades apenas afastam os indivíduos de seus próximos, tornando o interesse a máxima da vida de todos.

então suas palavras introdutórias não deveriam fazer sentido.

elas não eram para o meu povo, era para o meu erro. Quando eu tentei criar seres que vivem apenas para a pureza civilizada e os limites sociais encrustados, eu não pensei na revolta, nos gritos para a liberdade, tanto sexual, como econômica …

No templo, portas de pedras eram destruídas e imagens eram incineradas por tochas enquanto homenzinhos profanavam de diversas formas o templo. Suas bandeiras e discursos ecoavam, tornando as palavras: sexo e liberdade, a máxima disponível.

Neste momento em diante, Agui’Us apenas chorou.

não que estejam errado, eu fiz eles serem castos! Mas é uma natureza incontrolável, já que no momento em que conheceram a liberdade, se tornaram feras selvagens que apenas desejavam provar da carne! Eu também fiz serem sociáveis, vivendo apenas como células para a cidade, porém quando alguns não conseguiram se adaptar (percebendo-se como indivíduos), a liberdade para não viver nessa imunda sociedade se tornou a voz. E não apenas, eu também o fiz para amarem a prosperidade, porém quando alguns amontoaram seus ouros em paredes acima dos outros, todos desejaram igual! Querendo, através da liberdade de não contribuir com a cidade, riquezas do tamanho ou além!

A imagem se rompeu, levando August para a sala de algum trono antigo, onde chamas verdes crepitantes iluminavam os arredores, junto a Agui’Us, que se vestia com uma armadura negra, sem elmo, exalando toda a imponência junto com a solitária tristeza.

no fim – ele continuou – meus pequenos kleinis desistiram de viver sob as ordens de meu mandato, caminhando para o além, pelas montanhas de cristal. Durante alguns anos eles conseguiram viver sob a ordem desordenada, porém, com a derrota dos Drachenis no terceiro reino (vulgo era mágica) e o seu exílio em Bûlor’berg (N.A: montanha de cristal), um novo tipo de opressão caía, uma opressão que perdura até hoje, meu caro, como minha maldição às doloon’bhagäs a durgë et Kleinis (N.A: As setes partes do pecado dos Kleinis)!

August viu, através de suas pupilas a imagem das diversas cavernas soterradas com moedas de ouro e tesouros, além de tronos, guardados por seres dos quais os rostos se escondiam pela sombra e maldade.

eu vejo … – August também disse com a cena – vejo que se arrepende da maldição, ao mesmo tempo que não tem mais forças para voltar atrás. Drachenis foram corrompidos, aparentemente, e a culpa desta é a sua. O que mais se revelará para mim através disso?

nada … – O ser finalizou – tudo o que eu tinha para falar eu disse, pelo menos no que se diz sofrimento, porém, quero que me faça um favor, por mais que eu me contradiga completamente …

e o que seria?

quero que você liberte o meu povo e os traga de volta para Shava’Khün.

o que ganharei?

um livro …

que tipo de livro?

um chamado Natiora’Buch (livro da natureza)!

isso não tem muito significado para mim, deixa de seus mistérios e diga logo tudo como deve ser dito!

Com as lágrimas secas, Agui’Us esboçou um sorriso.

você deve conhecer algo chamado Flutcher, correto?

August ficou atordoado com as palavras, enquanto se tremia, esperando o bem que o chamava.

sim … é uma forma de conjurar magias através de sombras, ou algo do tipo …

quase: Flutcher é a voz das gargantas mortas. Os shidtenis quando aprenderam a roubar a essência das coisas, também aprenderam a escravizar. Eles pegam almas e aprisionam-nas em suas sombras, fazendo suas vozes conjurar o que nenhum cidadão nunca conseguira fazer: a amada mágica!

August se calou por um momento. A história sobre roubar a essência das coisas não era novo, porém só agora ele passava a compreender.

o que o livro me dirá?

magia!

August voltou a tremer com a ideia.

quantas?

magia não é um objeto, é uma forma de se conhecer o mundo. A forma que você compreender o livro que ditará quantas coisas você conseguirá fazer com ela!

August assentiu com a cabeça, enquanto cruzava os braços em pensamento.

mais alguma pergunta? – o ser então continuava.

sim: tudo isso … há quanto tempo veio a ser planejado?

desde que você nasceu!

como?!

eu já não disse: … tudo na vida do homem é predestinado. E o seu destino August, é de ajudar todos os deuses no que eles não podem mais fazer. Se é apenas isto, acho que já posso te preparar um contrato, correto?

sim, por favor …

Agui’Us pôs suas mãos nas chamas esmeraldas, retirando de lá um pedaço de pergaminho branco como a neve. De lá, ele olhou por alguns segundos, até que o pedaço flutuou até a visão de August.

Ele leu, diligentemente, enquanto anotava, com o seu sangue, já sabendo bem todos os procedimentos.

Contrato vitalício, resumo: Nesse contrato, aqui exposto, o senhor August Adorn, vulgo Bae’Sorim, concorda em lutar, eternamente, para o retorno físico e espiritual do povo dos Kleinis para Shava’Khün, em troca das recompensas já estabelecidas por Agui’Us.

Assinatura: August Adorn

e agora?

agora você retorna para o início …

Nota do Autor:

Antes de iniciar essa nota longa, venho me desculpar pelo atraso do cap. Em verdade, estive ocupado com um problema já não tão novo, do qual, aparentemente eu deixei para lá durante bastante tempo.

Esse problema é sobre o excluído capítulo 10 de GartenGüt, do qual eu sinceramente peço desculpas, mas que foi postado no site do lordian e que, sem mais delongas eu já linkei na página da novel neste site. O cap é bastante importante pois tem algumas informações essenciais para o desenrolar desse arco, como também guarda as primeiras impressões sobre esse grupo dissolvido nessa jornada.

Eu não postarei o cap no site para não causar confusão.

Continuando, lembram de uma novel, não continuada, chamada The sound of fog? Então, ela está sendo continuada no site kallusplat com o nome A Voz da Névoa. Junto com ela, eu também vou recomeçar Radiation.

Acho que é apenas isso, e desculpe pelo inconveniente.

Nota:

*Nave: é literalmente a ala central de um templo, onde acontece os cultos. Para mais informações: Nave (arquitetura)

*Belle époque: foi uma época que durou da segunda metade do século dezenove até a primeira guerra mundial. Foi marcada por muita mudança cultural, principalmente artística, onde o impressionismo tomava forma. Para mais informações: Belle époque.

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