Arauto Negro (Versão Alternativa): Capítulo 8

Garoto conhece Garota! (Parte 2)

 

 

 

>IV<

 

 

 

As runas e símbolos místicos gravados no chão começaram brilhar e conforme Rana se aprofundava no Plano Astral, fazia os anéis da relíquia antiga se mover cada vez mais rápido. O ar ao redor da jovem de cabelos dourado mudou radicalmente e dela se elevava uma aura branco-azulado.

 

Aur olhava atentamente todo processo. Estudando silenciosamente todo fenômeno que estava acontecendo, enriquecendo seu conhecimento sobre magia.

 

Minutos depois. A relíquia antiga sob a cabeça de Rana girava tão rápido que se tornou um borrão indistinto. Criando ondulações no tecido que separava os planos de existência. Seguido por um som de rasgar papel, uma fenda se abriu no tecido que separa as dimensões e do outro lado era possível ver um mundo de gelo e neve.

 

Um mundo onde o inverno era eterno e os mares eram congelados.

 

Uma lufada de neve e ar gélido atingiu as pessoas presente, fazendo todas estremecerem e os dentes baterem freneticamente como estivessem nus em um dia de inverno.

 

― Ela vai fazer pacto com um elemental de gelo de alto nível ― observou Aur.

 

― Uma Ninfa do Gelo para ser mais exato ― falou a professora Mika. ― Quione, uma entidade metafísica da quinta camada do Plano Astral. Só resta ver se ela vai ter sucesso em completar o pacto. Tudo vai depender da canção dela.

 

― Canção?

 

A professora assentiu.

 

― Ninfas, especialmente as da Água, Vento e Gelo exigem canções para formar um pacto. Se a voz e canção do invocador não agradar a Ninfa invocada ela negará o chamado e deixará o bruxo com uma maldição.

 

Aur olhou preocupadamente para ela.

 

― Minha irmã sabe o que está fazendo ― disse Marcos dando um passo em frente, sem olhar para ele. ― As mulheres de nossa família sempre faz pacto com ninfas do gelo. Tradição de família.

 

― Eu havia ouvido boatos sobre isso da Casa Barduck ― comentou a professora Mika. ― Ouvi também que poucas obtêm sucesso.

 

― Felizmente, graças a essa relíquia a chances de minha irmã aumentam significativamente.

 

― O que seria esse “aumenta significativamente”? ― perguntou Aur, ainda preocupado.

 

Marcos franziu a testa.

 

― Significa que ela tem 50% de chances de sucesso ― respondeu ele mal-humorado.

 

As palavras de Marcos não fizeram ele se sentir melhor. Mas tudo que Aur poderia fazer era torcer silenciosamente para ela obter sucesso.

 

De repente Rana se levantou e esticou os braços para frente e seus lábios se moveram, mas o que saiu não foi uma canção, mas sim uma melodia.

 

A melodia suave ecoava através do ar, arrebatando a alma de quem a ouvia. Aur fechou os olhos e deixou aquela melodia o levar ao espaço, tocando as nuvens de algodão e sentido os raios do sol da primavera tocar seu rosto como uma doce amante. Inicialmente Aur podia sentir um forte anseio de amor em cada nota da melodia. Mas logo as notas se tornaram baixas e tristes, um sussurro de outono e o mundo que restringia sua liberdade.

 

A melodia trouxe para Aur triste lembranças que pensou ter superado.

 

― Dizem que a música tem o poder de comover até mesmo as feras ― disse Aur, olhos fechados fortemente. Pela primeira vez desde criança ele sentia-se tentado às lágrimas. ― Acreditava que era uma bobagem sem fundamento lógico, mas vejo que estava completamente errado.

 

― Nem tudo pode ser explicado com números e lógica ― disse a professora Mika. Olhos marejados assim como grande parte dos alunos. ― Simplesmente há coisas que transcende a alma e não podem ser racionalizadas.

 

A melodia de Rana continuou, tocando o coração de todos presente e os levando às lágrimas. Não havia letras. Todos podiam compreender seu significado. Era uma melodia cheia de profundidade que transmitia seus sentimentos. Ora clamando por liberdade, buscando libertasse das correntes da família, fugir do destino imposto a ela. Mas havia também uma esperança em tons discreto da melodia, um sonho de liberdade e amor. Tímidos. Uma alegria contagiante que fazia todos sonharem com ela.

 

A melodia de Rana chegou ao fim, trazendo os ouvintes de volta a terra, aos seus sentidos. O silêncio imperava. E Rana olhava fixamente para a fenda, aguardando uma resposta a sua canção.

 

E uma reposta veio da fenda, trazendo uma rajada de gelo e neve e um som que assemelhava a um lamento, choro, brando. A rajada de gelo e neve seguiu adiante, rodopiando no ar até chegar a Rana e circular ao seu redor, como se estivesse avaliando-a.

 

― Uma encantadora melodia digna de uma Ninfa, doce criança filha do homem ― sussurrou o vento a neve e o gelo. ― Ouvi seu chamado e digo que es digna de um pacto comigo, Quione a Ninfa da Neve.

 

A rajada de gelo e neve ficou mais intensa e tomou uma forma humanoide, etérea, exalando uma graça e beleza sobrenatural. Ela fez uma mensura formal e pegou a mão de Rana, beijando-a. Logo desapareceu deixando para trás um terrível frio e uma risada de criança travessa.
Na mão beijada dela surgiu um emblema mágico que emitia um ar gélido.

 

Essa era a prova que ela havia forjado um pacto com sucesso.

 

A relíquia antiga parou de girar e a formação de runas e símbolos voltou ao normal.

 

― Como se sente? ― perguntou Aur, olhando a jovem de cabelos dourados com admiração.

 

Depois daquela canção talvez nunca voltasse a vê-la da mesma forma.

 

― Estou bem ― respondeu ela, olhando para o chão. Não conseguia encarar diretamente por causa de seu olhar intenso. ― Não esperava que minha energia mágica aumentaria com o pacto. E como tivesse ganhado um tanque de energia mágica extra.

 

― É um dos pontos positivos do pacto. Outro ponto positivo e o fortalecimento dos encantamentos e poder invocar a entidade metafísica sem qualquer ritual. Sua Ninfa da Neve vai ser de grande ajuda em momentos críticos.

 

Rana assentiu silenciosamente e encarou o próximo aluno entrar na formação, realizando o ritual para forjar um pacto. Enquanto os alunos realizavam os pactos os dois conversavam de tudo, menos sobre a melodia. Aur estava ciente sobre o significado da melodia, mas não queria trazer o assunto a tona e constranger sua companheira.

 

― Um bando promissor ― disse a professora, sorrindo de ponta a ponta. ― Embora até agora nenhum deles possa se comparar com sua Ninfa de Neve, são entidades metafísicas de alto nível. Obter o primeiro lugar no ranking de classes do 1ª ano me parece um sonho distante.

 

Os alunos que forjaram o pacto olhavam entusiasmados para os emblemas mágicos em suas mãos. Para muitos deles eram a chance de mudarem de vida e status dentro de suas famílias. Em uma Casa Nobre tudo que importava era o poder.

 

O grandalhão Marcos forjou um pacto com uma Ninfa da água, uma Nereide. Diferente de sua irmã sua canção era tudo… Menos bela e afinada. Por alguma razão bizarra que ele não conseguia compreender, Marcos conseguiu forjar com sucesso um pacto com a Ninfa.

 

― O que importa é o sentimento colocado na canção ― disse Rana em defesa do irmão.

 

Aur preferiu não falar nada.

 

Zafir Longdragun forjou pacto com um belo falcão de penas esmeralda do quarto nível do plano Astral.

 

Diana Yuful forjou pacto com uma espécie de pantera negra de seis pernas e três olhos do terceiro nível do plano astral. Outros alunos tiveram o mesmo resultado, com exceção de Lala Varriel que forjou pacto com um dragonewt – um pequeno dragão elemental do trovão do sexto nível do plano astral.

 

Aur não poderia esperar menos de alguém pertencente a Casa Varriel.

 

Depois de todos alunos forjarem seus pactos, a professora Mika olhou para Aur, permitindo que seguissem em frente.

 

― Agora é minha vez!

 

Seus colegas lançaram olhares cheios de expectativa e medo.

 

Não conseguiam imaginar que tipo de criatura formaria pacto com ele.

 

Aur estava imerso demais em seus próprios pensamentos para notar seus colegas. Na frente dele estava seu primeiro objetivo que era acessar a relíquia Astral-Regnum e depois invocar uma entidade metafísica poderosa suficiente para ajuda-lo nos futuros conflitos que surgiram quando sua família declarar independência.

 

As entidades poderosas, que podem ser consideradas pseudo-divindades, os reis astrais vivem acima do décimo primeiro nível do plano astral. Pensou Aur, lembrando as informações do Tomo dos Mistérios, Atheon. A entidade metafísica mais poderosa que um Bruxo fez pacto que se tem notícia, pertence ao nono nível do plano astral. Esse e o limite que a alma de um Bruxo consegue alcançar.

 

Houve aqueles que tentaram superar essa barreira, mas sem exceção todos acabaram virando vegetais por causa dos danos psicológicos sofridos.

 

Meu limite é o sétimo nível do plano astral. Mas uma entidade metafísica do sétimo nível está longe de ser aceitável. Preciso forjar pacto com uma entidade que tenha o mesmo poder de uma pseudo-divindade dos níveis superiores.

 

Normalmente isso teria sido impossível, mas Aur tinha o Tomo dos Mistérios e já havia encontrado um método alternativo de forjar um pacto com seres poderosos. Mas seria uma aposta ariscada. Ele estaria colocando sua vida em risco.

 

Aur se ajoelhou e colocou a mão esquerda no centro da formação. Enquanto na direita segurava o Tomo dos Mistérios.

 

Aur umedeceu os lábios, preparando-se para o que estaria por vir.

 

Derramando seu poder mágico na formação, ativou as runas e símbolos místicos. Mas ao invés de lançar sua consciência a relíquia antiga, murmurou um código que alterou toda estrutura da formação.

 

― …Alterar coordenadas dimensionais…Cancelar protocolos de acessos…Liberando Acesso ao Reino das Sombras, Sheol!

 

A terra estremeceu e as runas adotaram uma formação mais complexa e exalavam uma luz obscura. Depois de realizar os procedimentos descritos no Tomo dos Mistérios lançou sua consciência a relíquia antiga, projetando sua alma para o reino das sombras, Sheol.

 

No Tomo descrevia a existência de vários Planos além do Plano Astral. Um deles era o Reino das Sombras, Sheol. Nesse reino não havia níveis, apenas portas contendo entidades metafísicas banidas de seus mundos.

 

Resumindo: Sheol era uma prisão interdimensional.

 

A alma de Aur foi transportado para um mundo despedaçado, arruinado, amaldiçoado. O céu era de uma cor desbotada, melancólica, dominado por um imenso sol negro. Nesse mundo aonde o silêncio imperava, não havia menor sinal de vida.

 

Da terra jorrava um líquido preto, viscoso, igual a petróleo fluindo em rios e desaguando no mar negro borbulhante.

 

Os únicos sinais de que um dia houve vida naquele mundo era as majestosas estátuas e edificações em ruínas, envoltas pelas brumas do tempo. Sentinelas silenciosas da desgraça que se abateu sobre seu mundo.

 

― Preciso encontrar a Porta do Apocalipse e deixar esse lugar mais rapidamente possível.

 

O Tomo dos Mistérios falava sobre a existência de um anjo da ira de deus, portador da sétima taça do armagedom. Esse anjo – cujo nome foi apagado do livro da vida -, voltou-se contra os Elohim (deuses) e travou uma batalha, rasgando o firmamento e os sete céus. No fim o anjo da sétima taça foi derrotado pelos Elohim e suas hostes celestiais, banindo ela e os rebeldes para o reino das sombras, Sheol.

 

Inicialmente Aur duvidava da veracidade da história, mas devido aos detalhes técnicos descrito no Tomo passou acreditar na história. Na semana que passou lendo o Tomo chegou a conclusão de que era mais do que um livro descrevendo entidades metafísicas do plano astral. Para ele era como um livro de registro.

 

A questão que não deixava sua mente era quem criou o Tomo dos Mistérios. Embora ele não soubesse a resposta, tinha certeza de uma coisa: não foi escrito pelos antigos.

 

O Tomo dos Mistérios era bem mais antigo.

 

Aur navegou pelas ruínas envoltas de névoas, passando por uma miríade de portas lacradas por correntes, onde os rebeldes foram selados. Passou por eles como um borrão, subindo acima das ruínas, indo em direção ao sol negro que dominava o céu decadente.

 

Por um longo tempo navegou pelo céu decadente. Havia perdido totalmente a noção de tempo. Depois de incontável tempo, chegou até seu destino. Uma porta vermelha lacrada com correntes espirituais com a numeração: VII.

 

Da porta emitia ondulações mentais que distorciam o espaço ao redor.

 

Uma voz sem vida ecoava mentalmente pelo céu decadente.

 

― Eis que eles clamaram por salvação e os Elohim lhe ofereceram apenas destruição e morte…

 

A voz continha uma força opressora que fazia sua alma estremecer.

 

― Mundo após mundo, derramando a sétima taça do armagedom sobre os infiéis que não seguiam as leis dos Elohim…

 

Quanto mais ele se aproximava mais alta a voz se tornava, tornando quase insuportável estar ali.

 

― Vidas clamando por salvação e tudo que eu podia oferecer era destruição. “Quantos mundos terei que destruir?” Perguntei aos Elohim, Senhores do Paraíso. Eis que eles responderam: “Tus foi criada para destruir infiéis. Assim foi escrito no livro da vida.”…

 

Aur estava a menos de dez metros de distância da porta. Sentia uma terrível pressão sobre sua alma e uma dor pungente como estivesse sendo atacado por milhares de agulhas.

 

― “Não mais seguirei esse destino”, declarei guerra aos Elohim e derramei a sétima taça do armagedom sobre o sétimo céu, despedaçando o paraíso. Estrelas foram extinguidas e mundos perdidos para sempre. Perdemos a guerra, mais os senhores do céu foram feridos e agora são uma sombra do que um dia foram…

 

Aur alcançou a porta do apocalipse e tocou nas correntes espirituais. Sabia que do outro lado estava uma existência que chamais deveria voltar a ver a luz do dia. Que nenhuma pessoa deveria abrir, caso contrário quebraria o equilíbrio do mundo.

 

Uma pessoa de bom senso jamais pensaria e abrir que continha tal existência aterradora. Mas Aur era diferente.

 

Para o bem de sua família ele despedaçaria o mundo se fosse necessário.

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