GartenGüt (O Jardim Dos Deuses)!

XXX – Os seres espirituais e outras duas histórias!

XIV – Os seres Espirituais e outras duas histórias!

Sentados ao redor de uma fogueira, o grupo de August devorava uma estranha sopa de cogumelos com nacos de carnes, junto de duas figuras de seres cuja pelagem cor de palha reluzia sob a luz das chamas alaranjadas.

Desde que haviam sido forçados a ficar em tal lugar, por conta de August, o grupo se mantinha de uma forma um tanto antissocial. Eles entendiam o motivo de lá está, mas, ainda assim, era meio absurdo aceitar a própria situação. Eles estavam no refúgio de criaturas fantásticas, como poderiam se acalmar daquela forma?

Além do mais, o próprio ambiente os instigava ao medo. A clareira era escura, fria e, com a chuva, úmida, o que causava uma imagem desconfortante, misturada com as raízes e os buracos onde os seres se ajeitavam, que finalizava o clima mórbido do lugar.

A única coisa que levava luz ali, de vez em quando, eram os vaga-lumes de schump, que brilhavam ritmicamente em cada cor primária, enchendo as noites com um ar um pouco mágico, mesmo que meio desgastado.

Esse fato, único que acabou sendo admirado por aquele grupo, foi o que os aproximou de dois seres, cujos os nomes eram Bartvma’Sryx e Lervia’Stönt.

Foi da seguinte forma a aproximação, inicialmente: eles discutiam sobre o que August fazia, como de praxe. Era estranho o que acontecia, por isso eles se sentiam na necessidade de gritar, alertando os seres ao redor, que tentavam levar suas vidas tranquilamente em seus buracos, sobre tantos pontos e contrapontos que os levava ali.

A discussão se acalorou de tal forma, que aqueles dois seres, de nomes já citados, se sentiram na obrigação de tentar acalmá-los, no entanto, à sua maneira, é claro.

Eles começaram dizendo, enquanto passavam carregando cadáveres de coelhos e serpentes num tronco pra salgar:

como os guardiões do escolhido podem lutar tanto entre si? Se vocês se odeiam, se afastem. Foi isso o que fizemos com o mundo, e estamos bem.

E foi-se respondido, no meio de um calor que fazia surgir ali uma intensa bravura:

nós não nos odiamos, apenas discordamos. Queremos atingir o mesmo objetivo no fim, por isso discutimos.

Foi Mesorim que dizia, com um enorme sorriso, escondendo dos seres o nervoso que sentia pela própria discussão e das figuras que se aproximavam.

pra mim parece diferente … — Continuava um dos seres, Bartvma’Sryx especificamente; — parece que vocês estão resolutos sobre algo importante, por isso gritam tanto.

temos covardes entre nós, sábio ser! — Metvina respondia também. Ela sentia certo ódio percorrer o seu corpo naquele momento, por isso agia de tal forma. A culpada por isso talvez fosse Shigtai, por mais que houvesse certa dificuldade em descobrir a quem ela se dirigia de fato; — esses esquecem o objetivo inicial de nossa viagem, se reduzindo aos seus próprios temores, além de negar tantos feitos fantásticos que parecem se desenrolar em nossos próprios rostos.

mas não faz mal temer … — Dizia o outro ser, Lervia’Stönt, que tinha um sorriso leniente em face daqueles pequenos sorinis; — temíamos a presença de seres carnais aqui por anos. Esse medo nos fez sobreviver em meio a tanto tempo, onde eu posso até dizer que é uma das nossas principais armas de sempre. Porém, hoje, depois de 20 anos, deixamos vocês voltarem ao nosso bosque mágico, mesmo depois de toda a corrupção que o seu povo alastrou aqui, ilustrando que o medo tem hora e que a bravura sempre deve seguir junto a isso, no fim.

Com as palavras sábias, num primeiro momento, todos aqueles sorinis pararam num minuto de reflexão, onde absorviam as palavras salubres do ser centenário. No entanto …

espera! — Gritava Shigtai após pouco ponderar sobre aquelas palavras; — então aquela é a árvore do sátiro? Estamos no salão dos espíritos? Isso é impossível, meu pai dizia que os seres espirituais eram como anjos que desceram dos céus e …

nós parecemos bestas que degolarão seus pescoços sem hesitar? — O ser completou, fazendo surgir um silêncio constrangedor na face de Shigtai, que se resguardava, timidamente, percebendo suas palavras, enquanto era silenciosamente menosprezada por um risinho que saía da garganta de Metvina, que a observava com o rabo do olho toda a cena.

não fique dessa forma … — Bartvma’Sryx continuou, percebendo o silêncio; — nós realmente somos, não é mentira: Em tempos normais vocês já estariam mortos, no entanto, o que nos impede agora é aquele Nivadalë sentado em frente a árvore do sátiro. Então, fiquem aliviados, por favor.

Os sorinis engoliram suas salivas com a sentença, olhando para os dois seres de uma forma bem mais estranha, vendo, na pelagem, traços carmesim de sangue que os ameaçava inconscientemente.

Buh! — Um dos seres gritou.

Argh! — E Mesorim esperneou, caindo com suas pernas trêmulas em seu próprio peso …

Hahahaha! — Fazendo os dois seres a rir intensamente da face daquelas crianças, que se desfiguravam ao ouvir a sinfonia feita a partir das gargalhadas que se alastrava através da clareira.

crianças Varbenênts já foram bem mais corajosas! Hahaha! Essa geração de covardes me irrita! — Dizia Larvia’Stönt, recebendo palmadas no ombro, por Bartvma’Sryx, no qual também perdia a compostura naquele momento.

Os Sorinis, com aquela risada, sentiram uma pontada de alívio, misturado com um sentimento de segurança que vinha, entendendo que, por algum motivo, eles eram mais do que bem-vindos naquele reino de escuridão.

Esse mesmo fato também os assustava, os colocando num paradoxo estranho onde: é benéfico ser bem-vindo num reino de bestas assustadoras?

A resposta talvez fosse importante, mas naquele momento não, visto que, após aquele dia, certa aproximação se tornou visível entre os dois seres e o grupo, que passou a se resguardar de qualquer discussão violenta, em favor da comunidade da qual não era obrigada a escutá-los.

Até que foi bom, no pensamento de alguns do grupo, esse desenrolar, pois encurtou os dias que passavam daqueles reclusos, com as belas histórias contadas em frente a fogueira e as boas caçadas que os seres os forçavam a participar.

Mas como aqueles vaga-lumes acabam entrando nessa história? Bem, ainda não entra, visto que o presente se desenrola de uma forma bem interessante, no entanto, é bom alertá-los que já os introduzi sobre, alertando-os também que finalmente abordaremos o que importa …

*

Sentados ao redor de uma fogueira, o grupo de August devorava uma estranha sopa de cogumelos com nacos de carnes, junto de duas figuras de seres cuja pelagem cor de palha reluzia sob a luz das chamas alaranjadas.

A noite fazia um breu descer em seus rostos, onde, mesmo sendo afastado pela luz daquela fogueira, instaurava um reino de trevas ao redor.

Quentes e comendo uma boa refeição, eles não se importavam de todo com a escuridão, no entanto, com a aparição de certos vaga-lumes, um brilho percorreu o rosto daqueles que comiam, reparando na beleza que fazia surgir no ambiente; sobre estrelas caídas flutuando no mar negro que era a clareira.

antigamente … — Uma voz cortou a harmonia das raspações de prato e do chiado que faziam ao se devorar uma sopa; — esses vaga-lumes não existiam. Aqui no bosque, eles só existem nessa clareira também. É curioso.

ah sim … — Continuou outra voz, que largava a colher de madeira em seu pote; — eu estava lá quando aconteceu. Foi um dia terrível: os shidtenis haviam conseguido invadir o salão dos espíritos e aqueles Hilikómenus já haviam tirado todos os Varbenênts da borda do bosque, carregando além todos os quatro frutos do sátiro daquela estação. Estávamos em desvantagem, enfrentando hordas de Shidtenis, me lembro que foi até nessa batalha onde eu consegui minha pior cicatriz … vejam aqui no meu peito … 20 anos atrás eu quase morri para um punhado de falsos magos; para uma falsa bola de fogo que havia pousado em minha pelagem. Realmente, se não fossem os anos tentando me acalmar desse estado de frenesi, eu sinceramente já os teria matado. O pecado dos Varbenênts de ter-nos roubado e abandonado é demais para se desculpar facilmente, tanto que tem ainda muitos seres correndo por aí, em suas matilhas de loucos, apenas para destruir Varbenênts e qualquer outra coisa viva …

o que aconteceu? — Niathy perguntava. Desde que lá estava, ela sempre se interessara pelas diversas histórias do passado. Aqueles seres imortais pareciam não conseguir se esquecer de nada e, mesmo que a história parecia se virar contra todos daquele grupo, eles ainda se interessavam, senão ficavam mais curiosos ainda.

bem … — Lervia’Stönt recomeçava, pondo o seu pote de lado enquanto buscava em sua mente centenária as imagens que compunham o horror daquela época; — nós, seres espirituais, chamamos o período que se iniciou há vinte anos como a era do fim. As cartas que vieram dos corvos do norte e do sul declaravam isso, foi uma época de acontecimentos horríveis.

ei! — Bartvma’Sryx gritava para Lervia’Stönt; — você não precisa dizer cada detalhe, isso não os importa. Vai apenas ao principal!

se você diz … — Os sorinis que observavam a discussão, tinha toda as atenções a postos, observando, nas linhas que aqueles dois criavam, uma bela história que parecia que se perderia caso eles não escutassem atentamente; — entendo, vamos ao principal: há vinte anos os shidtenis de Pordu’Monde junto com o templo invadiram e saquearam Alba Galix. Os Aeons do templo desejavam irritar Alba Nix. Eles buscavam a essência das neves para invadir o norte e furtá-los as riquezas. Isso abriu espaço para as duas maiores cidades do sul dos feudos dos shidtenis, Fausse’Eaux e Jam’Auteûme, de buscar riquezas e abrir guerra contra quem quisessem. Dessa forma, Fausse’Eaux fora para as penínsulas do leste e para Narny’tsöl saquear, enquanto Jam’Auteûme buscava atravessar as planícies em busca das riquezas lendárias escondidas em Ger’Berig, a grande cidade dos Drachenis. No entanto, os soldados de Jam’Auteûme descobriram que ainda existia, escondido nas entranhas de um vívido bosque, a última essência de um antigo Deus morto, o que causou todos os problemas que existem até hoje …

Na face dos sorinis que escutavam, uma grande concentração era facilmente vista. Eles pareciam imersos em cada palavra, cada fato, seja necessário, seja desnecessário. Eles estavam escutando coisas mágicas de lugares que eles nunca haviam escutado, além de histórias que pareciam que nunca foram contadas antes.

Eles não virariam as faces para tudo aquilo que lhes vinha.

veja só! — No entanto, Bartvma’Sryx ainda interrompia, com uma face que parecia está estranhamente cansada; — vamos adiantar meu amigo? Ou melhor, deixa que eu faço daqui …

Lervia’Stönt não parecia ofendido de todo, mesmo que suas orelhas caíssem, perdendo a animosidade, enquanto dizia um — Okay … — num tom desanimado. Bartvma’Sryx retomava as rédeas da história, continuando:

os Shidtenis que vieram logo entraram numa batalha contra os Varbenênts, cuja a cultura afastada o fez se fragilizarem contra as falsas magias do Flutcher. Eles recuaram até a borda do bosque, pois sabiam que haviam guardiões, que nesse caso somos nós. Não só, naquela época os Hilikómenus pediram a nós, diretamente, auxilio, desejando nossa ajuda nas ofensivas que eles fariam contra os Shidtenis. Negamos, óbvio. Vivemos milhares de anos nesse bosque, não morreríamos por seres carnais. No entanto, eles não só trouxeram em seu rastro os malditos shidtenis, como também roubaram todos os frutos do sátiro, nos deixando sem a força necessária para lutar contra o mal que eles mesmo não foram capazes de lutar.

espere, o que é um fruto do sátiro? — Perguntava Sorokherim com sua face saindo do breu pelas chamas. O ser que narrava, riu com a pergunta, parecendo que um absurdo era jogado aos ventos para ti.

até disso o seu povo já se esqueceu! Hahaha! Bestas, o fruto do sátiro serve para alimentar os músculos, fortalecer os ossos, evoluir os seres numa versão melhorada deles mesmo. No antigo acordo, os Varbenênts ficavam com dois frutos e nós, seres espirituais, também ficávamos com dois. Apenas os melhores guerreiros comiam esses frutos. Naquela época, Strever’Ton que comeria o fruto, pois ele era o único que indicava que sobreviveria aos efeitos do fruto. Nessa época também nós tínhamos apenas 7 grãs guerreiros vivos.

e o que aconteceu com eles? — Sorokherim ainda perguntava, no entanto, da rouca voz que parecia sair da garganta de Bartvma’Sryx, uma estranha tristeza foi sentida entre todos que lá estavam. Os olhos de Bartvma’Sryx caíam pelo crepitar da fogueira, se lembrando, naquele mesmo instante, as dolorosas memórias que a época o remetia.

eles morreram … — Uma estranha voz dizia, saindo da escuridão; — Slava’Trex morreu com uma estalactite de gelo no peito, Köllum’Ivar teve o estômago penetrado por uma lança de raios, Skÿfar’Levín morreu com todo o sangue drenado das pernas amputadas, logo ali, naquele buraco (me lembro de seu ganido final, de dor), Hëllar’Serbin morreu carbonizado abraçando Lírax’Grar que também morreu desse mesmo modo. No fim, restaram apenas Yndrx’Selas e Grenk’Polr, que, lutando exaustivamente por uma tarde inteira, conseguiram, com muito custo, matar apenas um Shidten. Seus corpos mortos, no fim, se tornaram esses vaga-lumes, ficando eternamente presos nessa sepultura, nos protegendo do breu da noite e da má sorte. É isso, apenas isso e mais nada!

Strever … Ton … — Dizia Bartvma’Sryx, com custo, vendo sair da escuridão o seu querido amigo, que em tantas centenas de anos dividiu espaço; — não fique assim … passado é passado …

eu não vim aqui por isso! — Abruptamente, Strever respondeu. Sua face se contorcia em algo que transportava certa dor e raiva, fazendo os sorinis que lá estavam virar seus rostos para não ofender a figura; — O ancião os chamam, principalmente o sorinis. Ele diz que algo importante ocorrerá na escuridão, por isso a presença obrigatória.

entendemos … — Lervia’Stönt respondeu ao fim; — já seguimos, espere apenas um pouco …

Levantando lentamente donde estavam acomodados, os sorinis e os seres colocaram seus potes de lado. Se espreguiçando em frente a fogueira, uma estranha luz veio …


Nota do Autor: Cumpri minha promessa. Espero que fiquem felizes.

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