GartenGüt (O Jardim Dos Deuses)!

XXXIII – O ciclo finalizado!

XVII – Uma tocha na luz do mundo.

Olhando para o ser que finalizava sua fala, August tremia com uma emoção tremenda. Parecia que ele estava acordando, finalmente, de um longo sonho.

Nesta, sem perceber, uma quantidade absurda de imagens permeou sua mente. Elas eram simples, eram complexas, se transmutando das bordas de sua propriedade entre as linhas infinitas de uma casualidade já premeditada. Sobre o conteúdo dessas imagens, elas eram de guerras, de amores, de terríveis traições, de toda a história do continente vista dos olhos de um ser que caía na decepção de seus próprios dramas.

Sendo assim, August sentia, naquele ponto, uma conexão perfeita com Opã, criando um laço de vários milênios em poucos minutos – numa sinestesia tão intensa, que o seu corpo pairava numa empatia que ele nunca talvez tivesse sentido na vida.

agora entendo — ele disse, atraindo a atenção do ser em sua frente; — entendo!

Por algum motivo, naquele ponto, August se relembrava sua doença e de todas aquelas pessoas preocupadas com sua vida, em particular um médico, cujo o nome fugia de sua memória naquele momento.

Essas lembranças tinham, em sua particularidade, um certo olhar que ele via ao seu redor, que aparecia para ti se mostrando com dor e pena. Naquela época, ele odiava esse tipo de olhar, pois parecia que o mundo te rebaixava, lhe dizendo que nunca seria nada além de que um encosto até para a própria cama.

Porém agora, com tantos sentimentos percorrendo seu corpo – sentimentos que, vale ressaltar, eram de outrem –, sua visão, sobre, mudava drasticamente, sentindo, nas pontadas em seu peito, um grande abismo em seus olhos que partiam numa empatia infinita.

é bom que você entenda … — Opã, o observando, falou. De alguma forma, ele parecia reconhecer o que August sentia; — já que no fim, o que determinará o seu caminho sãos seus sentimentos perante o mundo, e não aquele que é particular seu, isso é muito bom!

Com certas lágrimas caindo de seus olhos, August observava, em sua visão, uma certa janela subir. Fazia tanto tempo que aquilo não te acontecia, que ele até se surpreendeu.

No entanto, quem mais parecia surpreso, naquele momento, não era ele, sendo Opã aquele que dirigia o olhar mais interrogador para a janela.

você tem uma forma bem única de vê o mundo, August … — Opã disse, tentando encostar na tela que se mostrava em sua frente; — seus sonhos ruins criaram um mundo bem especial, nem mesmo consigo lê as mensagens que se mostram. Se não fosse pedir demais, poderia me dizer o que nela há escrito? Minha curiosidade está bem viva junto com a minha sinceridade, então apenas me diga, por favor …

August, mesmo naquele mundo em que a verdade voava em seus arredores como tudo, ainda se sentia um pouco estranho falando aquilo que deveria ser tão íntimo. Porém, como um jovem de mil segredos relutantes, ele ainda sentia uma vontade quase infinita de compartilhar os sonhos mais profundos de sua mente humana.

Era um paradoxo que ele se prendia, sem muita emoção, pois, independente do que fazia, apenas a verdade existiria no fim, naquele lugar de loucos.

Dessa forma, era impossível ele não começar a ler, com aquela voz hesitante, as linhas:

Nova Habilidade Inata aprendida: Empatia. Uma das habilidades mais raras do universo, com o incrível poder de te colocar em situações alheias. Seu charme aumentará por sua capacidade de se espelhar nos outros.

Clap.

Da imensidão das palavras que se dispersavam no ar inexistente, Opã batia palmas audíveis a um August despreparado à pequena comoção apresentada.

Ele não entendia as intenções fundamentais, achando que fosse apenas um sarcasmo para aquela idiotice que sempre te afligia nos momentos mais importantes da sua vida.

Ele queria se recolher sob o olhar, todavia, Opã ainda estava ali, te olhando, com um profundo sentimento de curiosidade.

você vê o mundo de uma forma bem estranha August … — Depois de um período de silêncio, Opã falou; — mas acho que isso faz parte de sua essência. Outra coisa curiosa também é essa mania de você me surpreender. Entendo que você é o primeiro ser a dirigir palavras a mim, mas digo que não é o único que eu observei através dessa imensidão. Na verdade, já vi tantos do seu tipo que chega a ser estranho você ainda me surpreender dessa forma. Ah! Como eu queria poder falar mais, falar milhares de coisas a ti, mas isso não importaria no fim. Tenho presentes a te dá, isso é mais importante. Porém, antes disso, direi primeiro o que desejo de ti. Está pronto?

Sem muito pensar, August respondeu:

sim …

simplesmente desejo que você crie, para mim, um império … — Opã disse, numa longa reflexão; — mas acho que você deseja isso também. O que eu poderia te dizer a mais? Escute: desejo um império, mas desejo um império onde todos estejam incluso. Quero que seja construído uma sociedade onde qualquer um seja e qualquer um se transforme, onde suas forças sejam suas e que tudo que for criado nunca seja alienado. Que a essência das coisas se mantenha nos seus criadores e que a vida sempre seja respeitada. Em troca, lhe ensinarei a falar a língua do espíritos e mais, ou melhor, não contarei. Isso é algo que você deve aprender sozinho. Aceita?

August, que sentia uma profunda admiração pelas palavras de Opã, não via o que recusar. A proposta era simples e estava de acordo com os seus objetivos desde o início. Além do mais, ele também percebia que fosse talvez ali onde aprenderia a ler o tal do Natiora’Buch, então, o seu sim já estava esboçado, no entanto …

não é apenas isso, é? — August ainda perguntava; — você deseja algo mais, eu tenho certeza …

Opã, que escutava, riu com as palavras, admirando, naquele que indagava, sua noção quase perfeita da realidade.

talvez seja … — Ele disse; — mas se eu te contar agora, sua decisão final será extremamente influenciada.

August não entendeu e sentia que não era pra entender no fim. E mesmo desejando ter toda a situação no seu estrito controle, ele sabia que não havia negociações ali, apenas se aceitava ou não aceitava.

Dessa forma, por um momento, ele ponderou sobre o que ganharia e sobre o que perderia, buscando na sua mente alguma problemática que pudesse o fazer recusar.

Porém, nada se apresentava, tornando o apreensivo August a concordar mentalmente com toda a proposta da divindade morta em sua frente.

entendo. Bem, apenas assine esse contrato … — Opã disse, fazendo sair da palma de sua mão chamas verdes, na qual tinha, se levantando entre sua luz, um pequeno papel, que misticamente se formava.

August estava acostumado com a visão, por isso não se surpreendera, nem mesmo quando o mesmo voou em sua frente, mostrando seu conteúdo na sua linha de visão.

August leu:

Contrato vitalício, resumo: Nesse contrato, aqui exposto, o senhor August Adorn, vulgo Bae’Sorim, concorda em criar e sustentar o império de todos os seres, com as particularidades expostas a seguir, em troca das recompensas já estabelecidas por Opã Der Naturis …”

Aquele contrato era extenso, com diversas cláusulas e exceções, que August lia atentamente nos minutos que se passavam, até compreender que não havia nada de fato abusivo ou que estivesse fora daquilo já proposto informalmente antes.

Assim, retirando sua espada do escolhido, ele cortou sem muito esforço a palma de sua mão, escrevendo naquele contrato com o sangue que espirrava.

O deus em sua frente não sorriu com a cena, estando um tanto depressivo até, porém August não se importou.

Um monólogo silencioso se desenrolava e apenas o silêncio poderia prestar respeito aquele cuja solidão se solidificava mais fundo num mundo esquecido das bocas humanas. August entendia.

você vai ter o que deseja, mas acho que devo avisar: o que você sofrerá por isso será absurdo. Preparado?

estou …

*

Levantando lentamente donde estavam acomodados, os sorinis e os seres colocaram seus potes de lado. Se espreguiçando em frente da fogueira, uma estranha luz veio. Ela perfurava a escuridão da clareira e mostrava a todos ali um grande espetáculo de luzes, fazendo o dia se esgueirar por poucos segundos em meio a noite chuvosa e irritante.

Os sorinis e seres acordados não entenderam, mas, ainda assim, correram em direção ao corpo de August, que jazia sendo observado pelo ser Ancião, que tremia.

aquilo é sangue? — Metvina, apontando para August, disse, roubando os olhares ao seu redor, confusos.

sim … é — Mesorim respondeu, tentando se aproximar de August – onde era impedido pela figura do Ancião, que tinha um rosto absolutamente incógnito no local onde estava.

Os sorinis e os seres ainda estavam confusos, tanto que certas teorias começavam a se montar entre as mentes hiperativas que se desesperavam.

Pode-se dizer que algumas discussões até se afloraram a partir daquilo, criando uma certa imagem caótica dentro da visão daqueles que despertavam em meio a tantas mudanças. Porém, deve se dizer, o mais importante, no meio daquelas vozes histéricas que gritavam suas loucuras e argumentos ao vento, era August, que entrava no meio de um bilhão de palavras diferentes, inumanas, da qual apareciam em sua cabeça formando um script, que, com os seus códigos, desenvolviam um sistema perfeito onde todas as coisas surgiam.

Sua visão se embaçava com aquelas milhares de letras passando em segundos pelos seus olhos – criando códigos infinitos – até que sua própria visão se tornou tudo aquilo que ele via.

Em mente, sua boca formava um arco enquanto toda a informação inchava seu crânio, tomando-o como um balão, que explodia sucessivas vezes dentro das imagens que se repetiam e repetiam sem parar.

Sem perceber, exteriormente, seu corpo expelia seu sangue pelos poros da pele, o tornando empapado naquela – se tornando o indesejável carmesim da discórdia. Em compensação, um branco infinito se misturava com o negro de sua alma, formando centenas de bilhares de tons cinzas entre seu negro e o seu branco.

August caiu nessas imagens e nesse mesmo mundo, vendo que uma grande mudança era feita naquilo que se observa ser a mais pura e cristalina verdade de todo mundo.

Mas por que? August poderia se perguntar aquilo, porém ele também sentia que aquela não era a hora. Todas as coisas, naquele momento deveriam fazer sentido e deveriam também ser a verdade. Pois caso ele duvidasse, o mundo inteiro também duvidaria de sua vontade, entrando na parte mais crucial do processo.

August aceitou, no fim, o que devia aceitar, abaixando a cabeça para o cálido mundo que, naquela forma, o embraçava em trilhares de braços invisíveis.

Ele abriu seus olhos, o mundo veio com suas cores. O bosque morto que mostrava a depressão dos seres reduzidos a sombras vibrava com folhas verdes e flores que nasciam entre arbustos e árvores.

A grandiosa árvore morta, cujo topo se mostrava impossível, voltou a ser acessível a todos aqueles que desejavam sua glória, com os seus galhos se aproximando aos chãos mortais, mostrando o verde e o vermelho, que surgia como uma doce mistura embaixo daquele infinito cinza sobre sua cabeça.

eu vejo!

Ensanguentado, milhares de seres que se curvavam perante o milagre, se levantaram, vendo August que falava em meio a tantos olhares interrogativos.

No entanto, para aquele que estava sobre as luzes de uma fama eterna, todos os olhares pouco importava para aquilo que se apresentava em sua frente:

Livro da natureza: Capítulo 1 – Essência – A fortuna duradoura, um par de todos, que se apresenta em forma passiva, mas que sustenta perigos que brincam com nossas crenças. A verdade sobre a natureza, porém, consegue ser bem mais bela do que qualquer descrição poética.

Sua essência, por assim dizer, constrói todo um mundo complexo por debaixo de nossas pálpebras onde …”

Contemplando, August admirava com um belo e afirmativo sorriso, que dominava a mente de todos aqueles que sentiam no escolhido, a decência que uma emoção de orgulho trazia.

Era honra aquilo que eles desejavam … Era honra aquilo que eles absorviam.

Por um minuto, August fechou seus olhos, no silêncio, abrindo apenas quando a necessidade te pediu de volta sua presença.

Nota do Autor:

Vou parar de usar ponto e vírgula para meio traço. Acho mais agradável, visualmente falando.

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